William Bittar: Sobre a devoção a Santa Bárbara e seus templos no Rio

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre celebração do dia de Santa Bárbara, no dia 04 de dezembro

Foto: Fortaleza de Santa Cruz, Niterói. Acervo Particular

Assim como ocorre com São Roque, muitas crenças celebram Santa Bárbara, entre elas o anglicanismo, o catolicismo romano ou ortodoxo, umbanda e candomblé, provocando o sincretismo da Santa com Iansã, orixá relacionado com os raios e tempestades, a natureza em movimento. O dia 04 de dezembro é dedicado ao seu culto.

No Brasil, a Santa batiza onze cidades nos estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul, cultuada como padroeira dos profissionais que lidam com fogo, explosivos e protetora contra tempestades com seus raios e vendavais.

O sincretismo com religiões de matrizes africanas provoca uma curiosa manifestação híbrida até mesmo em católicos praticantes. Minha avó materna, por exemplo, devota fervorosa do Sagrado Coração de Jesus e Santa Rita, guardava a palha benta no Domingo de Ramos no pequeno oratório doméstico, onde, entre tantas imagens, estava Santa Bárbara e São Jerônimo.

Bastava o céu nublar anunciando temporal e o vento sacudir as folhas da mangueira e jamelão do quintal, ela cobria os espelhos, guardava as tesouras, recolhia alguns ramos da palha e queimava junto ao altar, invocando “Santa Bárbara, São Jerônimo, faz passar esse trovão!”, oração plena de nosso amálgama cultural, evocando indireta e involuntariamente Iansã ou Xangô dos cultos afros.

Bárbara, nascida em Nicomédia (localizada na atual Turquia), no século III, era filha única de Dióscoro, um nobre da região. Devido à sua beleza e ameaça de interesseiros, foi encarcerada numa torre, voltada para uma floresta, sem contato com a sociedade local, sequer para receber pedidos de casamento.

Durante suas poucas visitas à vila, Bárbara conheceu alguns cristãos que lhe revelaram os ensinamentos básicos da nova religião, que mudaram sua compreensão de mundo, inclusive recebendo o batismo.

Suas manifestações religiosas contrariavam as crenças locais, levando à sua condenação. Supliciada em praça pública, com a concordância do próprio pai, foi torturada, teve os seios decepados, mas não renunciou à sua fé.  Uma jovem cristã chamada Juliana tentou ajudá-la, também foi presa e condenada à morte por decapitação.

Dióscoro, o próprio pai, executou a sentença, mas conta a tradição que assim que a cabeça de Bárbara rolou pelo chão, um raio riscou os céus e atingiu fatalmente o carrasco. Assim, a mártir tornou-se protetora contra os relâmpagos e tempestades;

Apesar da sua popularidade desde o período colonial, a cidade do Rio de Janeiro conta apenas com dois templos católicos dedicados à sua devoção, ambos localizados na região suburbana, em Rocha Miranda e Vigário Geral.

A igreja matriz de Santa Bárbara, no bairro de Rocha Miranda, é uma construção recente, de nave ampla, composta por uma sucessão de coberturas triangulares de concreto, vitrais e cobogós para ventilação e iluminação. Junto ao templo, uma alta e esguia torre sineira destaca a presença do edifício religioso na paisagem horizontal da região.

Igreja Matriz de Santa Bárbara em Rocha MirandaAcervo Particular

Em Niterói, cidade vizinha da capital, existe uma capela, considerada das mais antigas na região, consagrada a Santa. O templo está nas dependências de um dos mais importantes monumentos militares do Patrimônio Nacional: a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, construída nas últimas décadas dos quinhentos para guarnecer a entrada da baía de Guanabara.

Durante a ampliação da fortificação, no início do século XVII, a capela ali foi edificada, recebendo muitas transformações, mas preservando sua ambiência e espírito original.

Pouco relevante em relação ao aspecto arquitetônico e ornamentação, a tradição atribui algumas lendas à utilização do templo, associadas à configuração do edifício. Próximo ao altar existe uma seteira voltada para o mar, implantada para permitir a vigilância do capelão, inclusive durante as celebrações. Assim, a tropa poderia se concentrar nas orações. A imagem de Santa Bárbara, esculpida em madeira, segundo a tradição, não pode ser transferida de seu local original, sob risco de tornar o mar revolto, dificultando a navegação e ameaçando a segurança da própria fortaleza.

Capela e imagem de Santa BárbaraAcervo Particular

Certamente, a denominação de um importante túnel da cidade do Rio, Catumbi-Laranjeiras, inaugurado em 1963, é sua mais popular homenagem, incluindo uma capela construída em seu interior, de dificílimo acesso, que originalmente recebeu um mural azulejar da artista Djanira.

Desde a década de 1940, durante a gestão municipal de Mendes de Moraes, havia a decisão de construir um túnel ligando o Centro à Zona Sul, atravessando o Morro da Coroa.  As obras iniciaram em 1947, mas devido a diversos problemas legais, como a desapropriação de mais de uma centena de imóveis e as condições geológicas do sítio, só foi inaugurado dezesseis anos depois.

Durante as escavações na rocha viva para abertura da galeria, as explosões formaram uma gruta, como o teto nervurado de uma catedral medieval, e provocaram a morte de dezoito operários.

Aproveitando aquele espaço não previsto, foi construída uma capela dedicada a Santa Bárbara em homenagem àqueles trabalhadores. Com acesso difícil através de uma escada metálica, localizada na região central da via expressa, o ambiente recebeu um grande painel de azulejos criado pela artista Djanira, representando a Santa.

Mesmo com registro de sua existência, responsável pela denominação do túnel, a capela era praticamente inacessível devido à poluição e a própria dificuldade de atingir a escada disposta na lateral de uma das pistas, no meio do percurso, quase imperceptível. Muitos chegavam a duvidar de sua presença.

Diante das péssimas condições de sua conservação, o mural foi retirado do local original, recuperado e após muitas discussões sobre sua nova localização, reconstruído no pátio do MNBA, onde pode ser livremente observado.

Painel de Djanira, originalmente no interior do túnel Santa Bárbara, depois removido para o pátio do Museu Nacional de Belas Artes, Rio.Acervo Particular

Praticantes de quaisquer crenças que cultuam Santa Bárbara ou Iansã, no dia 04 de dezembro, data provável de sua morte, elevam seus pensamentos e orações agradecendo ou rogando proteção à Rainha das nuvens de chuva, dos ventos, raios e tempestades.

Representada com uma torre, espada, cálice ou palma, nas imagens católicas, ou com uma espada ou leque, nas cores amarelo ou vermelho nos cultos afros, os devotos acreditam na sua energia vital emanada das forças da Natureza.

Salve Santa Bárbara! Eparrê, Oiá!

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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1 COMENTÁRIO

  1. Como “Bárbara”, me senti comovida e gostei muito de começar a ler essa coluna por este texto. Parabéns, Bittar! Sempre muita coisa interessante a dizer! Obrigada por isso! ?

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