William Bittar: Sobre os antigos camelôs na cidade do Rio de Janeiro

Presentes numa zona de transição entre estes dois segmentos de venda estão os camelôs, que desde o período colonial montavam seus tabuleiros ou tendas nos espaços públicos

Foto: Arquivo pessoal de William Bittar

Veio o camelô vender
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer pastel
e um bom churrasco de gato

Bosco e Blanc

Estamos na semana do Natal, a mais importante celebração do cristianismo: o nascimento de Jesus. No entanto, ao longo dos séculos, a sociedade consumista esqueceu ou colocou em segundo plano o aniversariante do dia e o próprio significado do ato de presentear, realizado pelos sábios Melquior, Gaspar e Baltazar e Gaspar que, segundo as escrituras, vieram do Oriente guiados por uma estrela para homenagear o Escolhido anunciado, trazendo, respectivamente, ouro, incenso e mirra.

A data implica na busca desenfreada por presentes em grandes lojas, sites de compras, shoppings, dependendo das condições econômicas dos consumidores. Nesta verdadeira caçada, há opções pelos mercados populares, “shoppings” a céu aberto, como a região da SAARA, no Centro do Rio, ou ainda os camelôs, distribuídos por toda a cidade.

Em coluna anterior, publicada em junho de 2022, abordamos alguns aspectos sobre o abastecimento urbano, manifesto na presença das quitandas e armazéns.Em setembro último, recordamos a presença dos ambulantes que entoavam seus pregões nas ruas de nossa memória.

Presentes numa zona de transição entre estes dois segmentos de venda estão os camelôs, que desde o período colonial montavam seus tabuleiros ou tendas nos espaços públicos.

Vendedoras de angu, Debret, 1827

Diferente dos mercadores que deambulavam pelos bairros carregando as mais diversas mercadorias, uma versão preliminar do delivery via aplicativos, os camelôs contavam com pontos fixos, ainda que informais, para negociar seus produtos.

Aqui podemos estabelecer uma filiação direta às feiras da Antiguidade, aos mercados do Oriente Médio, de onde a tradição registra a origem árabe da palavra khamlat, um tipo de tecido rústico apregoado nas barracas,que chegou à Europa medieval apropriada por outros idiomas.

A realização da Copa do Mundo no Catar, em 2022, tornou público um desses centenários exenplares, como o Souq Waqif, em Doha, originalmentepróximo às águas do Golfo Pérsico. Após grandes reformas, incluindo um aterro, o espaço foi revitalizado, incluindo estacionamento, acesso facilitado e conforto interno, inclusive com ar condicionado para minimizar o calor abrasador, em algumas lojas. Tornou-se ponto de referência e encontro de turistas durante a competição,

Retornando ao Brasil, as primeiras mulheres camelôs foram as quitandeiras coloniais, a maioria originária da África ocidental, que praticavam o comércio de frutas e verduras em barracas montadas nas vias públicas.

Vendedora de cajus, Debret, 1827

Com o fenômeno da urbanização, houve aumento progressivo das necessidades de seus moradores,proporcional às dificuldades crescentes para regularizar um estabelecimento comercial formal. O final do século XX assistiu à chegada da crescente ilegalidade presente em muitos produtos piratas ou falsificados, associações com a contravenção ou crime organizado, diferindo radicalmente de suas origens.

Mas é sobre os tempos românticos da camelotagem que aqui tratamos.Tempos da convivência tolerada com os órgãos da repressão, dos tabuleiros montados estrategicamente para escapar do famigerado rapa, ávido por recolher as mercadorias, em ocasiões especiais, ou apenas marcar presença nas ruas do Rio, sugerindo alguma ordem pública.

Doceiro e seu tabuleiro, início do século XX
Coleção particular

Camelôs vendiam um pouco de quase tudo. Comida pronta, nos tabuleiros de acarajé, cuscuz, quebra-queixo; peças de roupa; brinquedos; bijuterias. Com a liberação das importações no governo Collor, as bancas ofereciam radinhos, pilhas, relógios, walkmans (alguém lembra o que era?), competindo com a variedade das lojas de R$1,99.Existia a competição com produtos de origem ilegal ou falsificados. A pirataria surgia a pleno vapor, sem pudor ao oferecer similares ou genéricos como marcas originais. Contravenção e crime ocupavam o lugar da tradicional arte de vender:

– Senhorita! Senhorita ali de vestido vermelho! Moça bonita aqui não paga…, mas também não leva! Escovas especiais! Alicates! Lixas permanentes!

– Compre três, leve dois! Não é nada disso. Compre dois, leve três de qualidade freguesa! Olhe esse par de brincos! Até parece verdadeiro.

– Cavalheiro, pente flamengo, flexível e elegante! Não quebra no bolso.

– Abotoaduras, prendedores de gravata e de meias, para um homem elegante como o cavalheiro distinto aqui!

Outros tabuleiros deliciavam a criançada com estalinhos, bombas de fumaça, fósforos coloridos, estrelinhas…Para os mais velhos, os perigosos morteiros de três tiros. – Fogos de qualidade! Seguros!

Adiante, outro camelô apresentava uma maravilhosamistura para produzir coloridas bolinhas de sabão que, de todos os tamanhos e cores, flutuavam refletindo vitrines e sonhos pelas ruas da cidade. Acrescentem-se ambulantes com lugar fixo, como camelôs: pipoqueiros, lambe-lambes.

Para os adultos, jogos instantâneos, como adivinhar onde está a bolinha entre três copos emborcados… Valendo! Ou um número rápido de mágica, com cartas de um baralho habilmente pré-marcado. Até mesmo um remanescente realejo com seus cartões de recados selecionados por um periquito.

As cidades continuaram seu vertiginoso crescimento, acelerado em tempos do milagre econômico que atraía milhares de migrantes de todos os pontos do país, predominantemente das regiões norte-nordeste, em busca das delícias do sul maravilha que, de perto, era perverso e desumano.

Praças e ruas tornaram-se espaços de vendas, onde tradicionais camelôs, com pontos consagrados, dividem calçadas com novos vendedores, muitos deles atirados na informalidade pelo aumento do desemprego, muitos refugiados. Outros, a serviço de grupos organizados, receptadores de produtos falsificados ou até mesmo carga roubada, oferecidos a preços convidativos, que os “fregueses” adquirem sem qualquer preocupação com qualidade ou origem.

A necessidade de ordenação urbana gerou a proposta de centros populares de compra, os camelódromos. A iniciativa gerou polêmicas, pois afastava os vendedores dos seus pontos de origem, além de colocá-los numa competição direta com os concorrentes.

No caso do Rio de Janeiro, em 1994, foi inaugurado o Mercado Popular da Uruguaiana, assentando muitos camelôs e ambulantes, numa área provida de sanitários e administração. Mesmo sob muitos protestos, sua localização na região da SAARA, conhecida região de comércio a céu aberto, houve algum sucesso nas vendas, o que provocou melhorias, como a construção de coberturas e boxes independentes.

Mercado Popular da rua Uruguaiana, Centro do Rio
Acervo Particular

Com as sucessivas crises econômicas, esta forma de comércio foi parcialmente recrutada pela ilegalidade, gerando o aumento da repressão policial para atender denúncias do comércio legal sobre produtos falsificados, contrabandeados ou até mesmo oriundos de furto. Boxes são fechados gerando protestos e não raramente os transeuntes da região central da cidade são testemunhas ou vítimas de verdadeiras batalhas com agentes públicos.

Mesmo com promessas eleitoreiras para ampliação dos mercados populares e tentativa de regulamentar a atividade, existe um aparente acordo tácito entre as partes: o poder público representa seu papel de cuidador enquanto poderes paralelos continuam a agir, cada vez com maior amplitude, definindo até mesmo valores para ocupação de pontos.

Com alguma frequência ocorrem ações espetaculares, com demolições de quiosques, fiscalização, enquanto em outras regiões o poder paralelo continua com suas investidas para diversificar seus financiamentos, num moto contínuo.

Mais uma atividade tradicional ficou no passado, junto com seus pregões, sua alegria e familiaridade com seus muitos fregueses assíduos, que foram lançados no terreno da impessoalidade e da dúvida ao adquirir qualquer produto de um possível camelô transitório, sabe-se lá a serviço de quem.

Chega dezembro, as festas, os presentes de última hora e o consumidor, atordoado e apressado, sequer se recorda da importância da data, a origem dos produtos, pois até mesmo o tradicional Papai Noel aparece em propagandas com roupas de cores diferentes da original, conforme gosto ou ideologia do que representam.

Afinal… um ótimo Natal!

Aproveito para desejar aos leitores e especialmente à equipe do Diário do Rio, na figura de seu fundador e Diretor Executivo, Quintino Gomes Freire, um ótimo Natal e tempos melhores em 2023, com muita atenção no que virá.

Agradeço à participação dos leitores e principalmente ao jornal pela oportunidade de compartilhar ideias e opiniões, num espaço democrático e plural, como deve ser um órgão de comunicação.

Meus sinceros cumprimentos a todos!

So this is Christmas
And what have you done?
John Lennon

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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2 COMENTÁRIOS

  1. A figura do camelô tomou tanto do meu imaginário que o centro da cidade se tornou sinônimo desse tipo de comércio para mim embora como o mesmo dito da matéria há outros tipos de comércio com outras origens

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