William Bittar: Um passeio estático pelo patrimônio arquitetônico do Largo da Carioca

Este estabelecimento foi instalado no térreo do antigo edifício-sede da Caixa Econômica Federal, localizado no Largo da Carioca, logradouro tradicional da capital fluminense

A interdição pelo Corpo de Bombeiros da loja Melhor das Casas, do grupo chinês Casas da Mamãe, aberta no final de 2022, noticiada neste Diário em 05 de janeiro último, reabre a discussão sobre a ocupação de obras arquitetônicas que integram o Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro.

Este estabelecimento foi instalado no térreo do antigo edifício-sede da Caixa Econômica Federal, localizado no Largo da Carioca, logradouro tradicional da capital fluminense.

A ocupação de edificações de importância cultural é um ato de preservação, sendo o mesmo tombado ou não, conforme recomenda a Carta de Veneza, de 1964, um dos mais importantes documentos internacionais sobre restauração e conservação de bens: “A conservação dos monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil à sociedade.”

Portanto, é previsto a possibilidade de alteração do uso original, atendendo a algumas restrições, no caso de tombamento, ou simplesmente respeitando referências culturais locais e os valores intrínsecos do objeto.

Existem diversos exemplos bem-sucedidos no Brasil e no Mundo, que revalorizam obras que, por vezes, se encontravam abandonadas ou até mesmo em ruínas, alterando necessariamente suas funções originais e preservando suas identidades.

O antigo edifício da Caixa Econômica, projetado por Mourão, Tiedemann e Gonçalves,inaugurado no final da década de 1960,além de seus aspectos artísticos, representava os valores do conhecido “Milagre Econômico Brasileiro”, que também se manifestou em obras próximas, dispostas na Esplanada de Santo Antônio.

Ele foi adquirido por um fundo de investimento imobiliário,durante um programa de venda de imóveis do governo federal e desocupado no final de 2018, incluindo o fechamento de seu Centro Cultural.

Após alguns anos sem uso, finalmente recebeu uma nova utilização, sem considerar seus valoreshistóricos ou artísticos, como os relevos das colunas internas ou o grande painel de Bandeira de Melo, todos com visão obstruída por objetos ou mobiliário comum.

Além de sua importância como marco, integra um notável conjunto arquitetônico disposto no entorno imediato do Largo da Carioca, que percorre quatro séculos de arquitetura da cidade.

Largo da Carioca, A. Malta, 1907.

É possível uma interessante experiência sensorial para qualquer transeunte, independentemente de seu conhecimento acadêmico ou a necessidade de um guia especializado, para observar o conjunto atual.

O Largo é impregnado de história e referências demolidas pelo progresso: a antiga lagoa, drenada pela Rua da Vala (depois Uruguaiana) e aterrada; um grande chafariz, responsável por abastecer a região com as águas que desciam do aqueduto (os Arcos da Lapa); a antiga Imprensa Nacional, na rua da Guarda Velha (depois Treze de Maio); o antigo Liceu de Artes e Ofícios e a Sociedade Propagadora de Belas Artes, na mesma rua; o memorável Hotel Avenida e sua Galeria Cruzeiro, substituído pelo Edifício Avenida Central; o tradicional Tabuleiro da Baiana, terminal de bondes e ônibus.

A ausência de imagens aqui é intencional, para provocar a visita curiosa do leitor ou mesmo uma consulta a ferramentas da internet.Basta posicionar-se no centro daquela esplanada, dirigindo o olhar para o outeiro a oeste, onde se destaca em sua austera simplicidade de paredes caiadas entre marcações de pedra, o Convento de Santo Antônio, iniciado no século XVII, contíguo à Igreja da Ordem Terceira da Penitência, com notável interior de talha dourada setecentista, obra de Xavier de Brito, referência na arte ornamental colonial.

O conjunto original se constituiu em um dos mais completos conventos construídos na Colônia, composto de igreja conventual, claustro, capelas, cemitério, hospital e até mesmo uma farmácia, muito descaracterizado pelas sucessivas reformas urbanas na região, incluindo o arrasamento parcial do morro para abertura da esplanada de Santo Antônio, com ocupação muito diversa do projeto original definido pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy.

Ao fundo do convento, comprometendo o recorte da silhueta contra o poente, ergue-se a torre de vidro escuro do edifício projetado para o BNDES, que também pode ser observado, interferindo a tranquilidade,no pátio da clausura.

Originalmente denominado apenas BNDE, localizado na Avenida República do Chile, nº100, o projeto foi idealizado para concentrar todos os serviços do banco no mesmo local, otimizando o funcionamento. Umaequipe de arquitetos de Curitiba (Alfred Willer, Ariel Stelle, José Ramalho Jr., José Sanchotene, Leonardo Oba e Rubens Sanchotene) sagrou-se vencedora de um concurso realizado em 1974, mas a obra só foi inaugurada oito anos após devido a dificuldades em sua implantação, num terreno originariamente alagado.

Tratava-se de uma ousada proposta estrutural composta por um monumental “pilone” central que suportava as lajes em grelha, em balanço, liberandoos pavimentos e toda fachada, vedada por uma única pele de vidro escuro. O exemplar adotava o “estilo internacional”, presente em edifícios de grande porte, principalmente nos Estados Unidos pós-guerra.Havia, ainda, uma intenção projetual de estabelecer uma ligação direta entre seu subsolo e a estação metrô Carioca, acesso não implementado.

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Continuando o giro, o olhar se depara com uma das obras mais icônicas do período devido ao valor institucional e arquitetônico: o edifício-sede da Petrobras.

Ao fundo, a silhueta cônica da moderna Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, inaugurada em 1976 que, devido à sua importância, será abordada em próxima ocasião.

A Petrobras era um dos grandes símbolos do Brasil Grande, necessitando de uma imagem para consolidar sua importância. No final da década de 1960, foi promovido um concurso público para o projeto da nova sede, vencido por uma equipe de Curitiba coordenada pelo arquiteto Roberto Luiz Gandolfi.

O edifício foi construído entre 1969 e 1974 como uma marca tão poderosa para o governo militar que chegou a integrar,sutilmente,a abertura da novela de maior audiência até então, Selva de Pedra, em 1972.

O partido adotado para a fachada era muito original, composto de volumes que se assemelhavam a um jogo de cubos, alternando cheios com vazios de jardins projetados por Burle Marx, diante de uma esplanada que valorizava sua silhueta, uma variação mais livre da cartilha rígida da arquitetura moderna.

Próximo a ele, porém fora do ponto de vista que adotamos, estava a antiga sede do BNH, uma esguia torre de vidro que completava o trio que o carioca irreverentemente apelidou de “Triângulo das Bermudas”, em referência à quantidade de dinheiro que ali desaparecia sem deixar vestígios.

Continuando o ciclo, atrás dos edifícios limítrofes ao largo, surge a torre que abrigou a sede do Banco do Brasil com seus 45 pavimentos, um dos mais altos da cidade, adaptado pelo arquiteto Marcello Campello para concentrar as atividades da Instituição, em um empreendimento da Veplan, empresa imobiliária que se tornou insolvente.O Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, à feição do BNDE, adotou o repertório da torre de vidro escuro, dentro do discurso do “estilo internacional”, com todas as suas desvantagens climáticas.O conjunto foi colocado em leilão em dezembro de 2022, mas o ato foi suspenso judicialmente.

Na esquina da Rua Senador Dantas, próximo à sede do Banco do Brasil, está um curioso exemplar de nove pavimentos, projetado em 1938 pelo arquiteto Raul Penna Firme, para abrigar o Liceu Literário Português. A fachada apresenta ornamentação com inspiração neomanuelina, assim como o oitocentista Real Gabinete Português de Leitura, este próximo ao Largo de São Francisco. Complementando a homenagem à cultura lusa, o hall de acesso apresenta painéis de azulejos historiados do artista português Jorge Colaço.

Mais um curto giro para esquerda e surge o edifício-sede da Caixa Econômica Federal, que utiliza um partido arquitetônico composto por uma ampla plataforma horizontal sobre a qual se dispõe a lâmina das salas. Em seus primeiros anos de funcionamento, ainda não plenamente ocupado, houve um grande incêndio, em 1974, cujo combate teria sido prejudicado pela dificuldade de aproximação das viaturas e escadas do Corpo de Bombeiros em relação ao corpo vertical. Neste exemplar não foi adotada a torre de vidro, mas varandas sacadas estabelecendo um ritmo visual na fachada.

Ao lado, separado por uma pequena rua, está o Edifício Avenida Central, marco da utilização de estruturas metálicas em edificações de grande porte. O projeto foi desenvolvido pelo arquiteto Henrique Mindlin, em 1959, inspirado nas grandes torres americanas, especialmente no Lever House, de Skidmore, Owings e Merril, construído em 1951, em Nova York.O Brasil do concreto armado se voltava para novas experiências construtivas, ainda em processo de consolidação.

Antes de retornar o olhar para o Convento, o percurso geográfico (e não cronológico) passa pelo edifício-sede do Citibank do Rio, projetado em 1979 por Pontual Associados Arquitetura e Planejamento. Neste caso, os grandes panos de vidro são substituídos por painéis metálicos de revestimento, intercalados por vãos reduzidos para iluminação, já que o prédio possui ar-condicionado central. Devido ao terreno reduzido, os arquitetos promoveram um interessante jogo de volumes nos pavimentos superiores, criando alguns ambientes com mais iluminação direta através de claraboias.

O olhar resvala pela rua Gonçalves Dias, a poucos metros da Confeitaria Colombo, passa pela perspectiva dos sobrados ecléticos do final do século XIX na Rua Uruguaiana, cruza o início da Rua da Carioca, artéria outrora efervescente, que se encontra num processo de triste estagnação, com muitas lojas tradicionais fechadas, como olhos e bocas caladas daqueles sobrados, como o Bar Luiz e sobe outra vez pela amurada de pedra até a brancura das paredes do convento.

Mais rapidamente que a leitura deste texto, o curioso transeunte fará uma viagem pela arquitetura da cidade, ao vivo, sem sequer sair do lugar.

Certamente, além da beleza natural cansativamente repetida, poucos lugares no mundo apresentarão essa diversidade arquitetônica em espaço tão restrito, convivendo democraticamente partidos arquitetônicos diferentes na concepção e resultados. Um aprendizado cotidiano de compreensão e aceitação do outro,que nem todos conseguem assimilar, por vezes acometidos por uma incurável intolerância.

Motivos para aumentar a paixão pelo Rio, apesar de tanto tudo.

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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