William Bittar: Vassouras, a Princesa do Café

Em meados do século XIX, com a ocupação do Vale do Rio Paraíba do Sul, a cultura do café tornou-se expressão nacional do Império e esteio econômico do regime, chegando a integrar a própria Bandeira

Em meados do século XIX, com a ocupação do Vale do Rio Paraíba do Sul, a cultura do café tornou-se expressão nacional do Império e esteio econômico do regime, chegando a integrar a própria Bandeira.

Firmava-se o ciclo cafeeiro e construíam-se as fazendas de café no Médio Paraíba, em extensa região compreendida entre São José dos Campos, em São Paulo e São Fidélis, no Rio de Janeiro, de onde a produção canavieira predominava até a foz do rio, em São João da Barra.

Beneficiados pela riqueza do café, pequenos povoados, antigas paradas no trajeto do ouro das Gerais, progrediram e consolidaram-se como promissoras vilas e cidades, pontos de reunião daquele novo segmento aristocrático que despontava: os Barões do Café.

Com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, a aristocracia cafeeira sofreu um ligeiro abalo, rapidamente superado com o aumento da contratação de mão-de-obra “assalariada” do imigrante.

 Mais uma vez o café estabilizou-se beneficiando a oligarquia rural, colocando-a no poder republicano, ditando as regras do Estado até a crise da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, quando haveria o confronto com a burguesia industrial em ascensão.

Com a afirmação do ciclo cafeeiro e a valorização do produtor que atingia o status de Barão, casas tradicionais foram continuamente reformadas e valorizadas, novas construções surgiram, sempre procurando, de alguma forma, igualar-se ou superar, ainda que de uma forma particular, os padrões praticados na Corte.

As fortunas cresciam e ainda que os títulos, muitos deles comprados, não fossem hereditários, os barões eram substituídos pelos descendentes, bacharéis que estudavam na Europa, retornando, às vezes, até com ideais libertários, contrários ao processo escravagista que recrudescera com a necessidade de mão de obra para a produção.

À medida que o proprietário enriquecia e a família aumentava, o espaço de morar refletia esta opulência. A observação da moradia e dos hábitos desta sociedade permite compreender os padrões idealizados por esta nova classe dominante que pretendia, cada vez mais, ficar de frente para o mar e de costas para o Brasil, a não ser para retirar da terra os recursos necessários para aumentar sua riqueza.

Entre os núcleos implantados ao longo do século XVIII surgiu Pati do Alferes, elevado à Vila em 1795, importante ponto de passagem e berço político de Vassouras, que a tradição atribui sua denominação a certo tipo de vegetação existente na região que servia para confecção de instrumentos de varrição.

Em 15 de janeiro de 1833 foi extinta a Vila de Pati do Alferes, transformada em distrito, enquanto a povoação de Vassouras, formada de pequeno núcleo composto de igreja e quatro ou cinco casas, era elevada à Vila, alegando-se sua melhor localização e acesso facilitado. Tal mudança foi coroada de sucesso, pois em 1835 a Vila já era descrita com boas casas de vidraças, símbolo de prosperidade.

Charles Ribeyroles, em seu Brasil Pitoresco descrevia a região: em 1833, era ainda uma lagoa, e seus dezoito ou vinte tetos se ocultavam, modestos, no meio das capoeiras.  Tem agora mais de trezentas casas, das quais algumas bem confortáveis… No terço do declive, que se eleva até à igreja matriz, largamente assentada num planalto, acha-se um chafariz gracioso e esbelto… Em 1849, um relatório do vereador Teixeira Leite registrava que a Vila já possui perto de cem casas, algumas das quais bons prédios.

Nesta época e até a década de 1870, a Vila atingiu seu período áureo, abrigando hotéis, hospedarias, bons colégios e até mesmo requintadas joalherias, incluindo a inauguração da estação ferroviária, reformada no início do século XX, quando adotou uma tipologia inglesa.

Este crescimento, bem como o aspecto organizado que a Vila apresentava, devia-se a uma perfeita integração entre a Irmandade Religiosa e o Corpo da Câmara, compostos quase sempre pelos mesmos homens, zelosos pelo desenvolvimento local, inclusive contratando profissionais de centros mais adiantados como arquitetos, engenheiros, pintores, escultores, que trabalharam em obras públicas e particulares.

Vinte e quatro anos depois da criação da Vila, em 29 de setembro de 1857, Vassouras recebia o título de Cidade. Neste ambiente propício, bafejado pelos ventos da fortuna, desenvolveu-se uma sociedade abastada, alternando alguns arraigados hábitos patriarcais, herdados dos primeiros habitantes da região, com inovações de comportamento advindas da influência francesa, trazidas pelos herdeiros daquela primeira geração de desbravadores.

Encontramos faustosas residências que, embora construídas com materiais tradicionais como pedra, adobe e taipa, apresentavam um requintado acabamento e luxuoso mobiliário, capaz de causar inveja aos fidalgos da Corte: papéis franceses nas paredes, sancas primorosamente estucadas, parquet nos pisos, aparadores em mármore, pianos de cauda, finas cortinas, louça refinada, enfim o conforto de um palacete da Capital, às vezes superando-o.

Essa forma de morar refletia a necessidade de sentir-se francês, surpreender-se com o comportamento “selvagem” dos trópicos e encomendavam paisagens europeias para suas paredes, abrindo janelas e balcões imaginários para a Europa de seus ideais, retratados em pinturas murais.

Certamente, nas horas vagas, no calor tropical, aqueles barões refugiavam-se nos braços ardentes das mucamas, provando das suas delícias, bem como do aroma e do sabor acre ou adocicado das frutas nativas ou aqui aclimatadas como pitangas, jacas, mangas, jamelões, jambos, sapotis, sempre plantados nos fundos dos grandes quintais das habitações urbanas, escondidos da vista dos transeuntes, que só se deparavam com a beleza da fachada neoclássica e exclamavam extasiados: – Ali, certamente, mora um homem importante.  Um bacharel, um Barão…

Conjuntos como a Chácara da Hera possibilitam a compreensão da vida abastada cotidiana do ciclo cafeeiro, principalmente por decisão direta de sua última proprietária, D. Eufrásia Teixeira Leite, notável mulher muito à frente do seu tempo, que lavrou em testamento a preservação de seus ambientes e utensílios.

Outros conjuntos urbanos, como a Praça Barão do Campo Belo e o Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, ainda são testemunhas do passado de fausto e atuação direta dos moradores nas melhorias urbanas.

Exemplares arquitetônicos preservam algo de sua configuração original, apresentando ao visitante a cidade dos barões: solar do Barão de Vassouras, residência do Barão do Itambé, residência do Barão do Ribeirão e do Visconde de Cananéia, antiga Casa de Câmara e Cadeia (atual Prefeitura), a Matriz Nossa Senhora da Conceição, a antiga Santa Casa de Misericórdia, que mantém em seu terreno um pequeno cemitério que abriga os túmulos de dois judeus, únicos até hoje sepultados em solo cristão no mundo, segundo a tradição local.  O espaço paisagístico foi projetado por Roberto Burle Marx.

Ao chegar à praça principal, o visitante percebe um ar de aristocracia hospitaleira, uma certa mineirice no tratar e um certo orgulho em seus habitantes. Afinal, Vassouras, durante grande parte do século XIX, detinha rédeas significativas da economia imperial tornando-a conhecida não apenas por seus chafarizes, palacetes e um vistoso tapete de grama em direção à Matriz.

A estreita relação dos moradores com a cidade estava consolidada nas benfeitorias promovidas pela Câmara, Associação Comercial e a própria Irmandade da Conceição, geralmente composta pelos mesmos integrantes.

Conta a tradição que havia uma disputa velada entre os pares da vila disputando prestígio através do patrocínio de obras públicas, como pavimentação, doação de chafarizes, colaboração para construção de hospitais e cemitério. Um notável exemplo do real papel de representantes do povo, agindo diretamente para melhorar a vida na vila-cidade, exercendo verdadeiramente o papel da Câmara e seus vereadores.

Nasciam, moravam e praticamente exigiam seus sepultamentos no cemitério local, um dos primeiros extramuros do Império. Suas ruas ainda abrigam seus fantasmas, presentes nas figueiras e nas pedras que pavimentam o acesso para o campo santo e para o memorial Manoel Congo, líder africano de uma rebelião em massa de cativos na região, condenado à forca em 1839.

Os antigos chafarizes públicos, construídos por benfeitores para saciar a sede dos viajantes e habitantes locais, jazem sem as águas que motivaram sua implantação.

Aos fundos da igreja está o Cemitério da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, onde repousam muitas personalidades da antiga vila em seus mausoléus. A morada final é compartilhada com alguma estratificação social, conforme sua localização no campo santo, porém todos dentro dos mesmos limites, como a figura lendária do Monsenhor Rios, sepultado em cova rasa em 1875, sobre a qual brota uma curiosa planta em todos os novembros denominada Flor de Carne. Junto ao túmulo, o visitante encontra placas de agradecimentos, ex-votos, pelas graças atribuídas ao antigo vigário local.

A situação ainda desperta curiosidade, como expressou Affonso Romano de Sant’Anna em uma crônica publicada em 2011:“Os mais fatalistas dizem que ela brota exatamente em 2 de novembro, Dia dos Mortos. Tem cheiro, não se sabe se de carne de escravos ou do Monsenhor. Da vida morta, de morte viva”.

Asseguro que em novembro lá estava a flor, quando visitei aquele cemitério. Testemunha da Natureza, patrimônio imaterial no cenário material e no imaginário da antiga Princesa do Café.

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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