William Siri: Transporte ferroviário digno não é favor do governo do estado

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre transporte ferroviário

Estação de trem de Quintino, subúrbio do Rio de Janeiro | Foto: Rafa Pereira - Diário do Rio

Os trens representam nada menos do que o maior modal de transporte do estado do Rio de Janeiro. Eles estão presentes em cinco ramais e três extensões que, somados, chegam a 270 quilômetros de trilhos pelos quais são transportadas mais de 350 mil pessoas diariamente entre 104 estações. O número de passageiros é grande, mas poderia ser bem maior. No passado, o sistema ferroviário chegou a registrar mais de um milhão de passageiros por dia.  

Como vereador, fiscalizar esse sistema, cuja responsabilidade é da alçada estadual, não está entre as nossas atribuições diretas. Mas como ignorar esse transporte fundamental para o nosso município? A mobilidade urbana é uma das prioridades do nosso mandato na Câmara Municipal e é visível o descaso no serviço dos trens. Por isso, fomos a todas as estações da região mais populosa da cidade do Rio, a Zona Oeste. O que encontramos nas estações de Bangu e Guilherme da Silveira, também em Bangu, reflete bem a realidade geral.

Para começo de conversa, cabe a nós chamar a atenção para os horários da SuperVia, cuja grade está disponível no site da companhia. De segunda-feira a sexta-feira, o primeiro trem passa às 4h47 e o último, pouco depois das 23h. No final de semana, a abertura ocorre após às 5h e fecha após às 21h. A conclusão é óbvia: os trabalhadores noturnos são prejudicados. Além disso, boa parte da população tem acesso restrito aos equipamentos de cultura, concentrados no Centro e na Zona Sul. Ir a um show, teatro ou cinema significa ter de se virar na volta para casa. Precisamos garantir transporte seguro e eficiente para todos. Em caso de necessidade de parada para a manutenção dos trens, deve haver alternativa pública. 

Outro fator delimitante é a acessibilidade das estações. A estação em Bangu, junto ao Calçadão, só é possível ser acessada por escadas rolantes que ficam após lances de escada. É algo inacreditável. Para piorar, não raramente elas se encontram quebradas, assim como o elevador. Idosos, grávidas e cadeirantes dependem da ajuda alheia para chegar e sair. Na estação Guilherme da Silveira sequer há rampa, escada rolante ou elevador. 

A conexão feita por ciclistas com os trens também é difícil. A estação de Bangu possui bicicletário, mas ele está fechado desde 2020. Antes disso, só funcionava das 8h às 18h. O que explica horário tão restrito? Como fica quem trabalha no Centro ao final do expediente? Neste quesito, novamente a Guilherme da Silveira se mostra especialmente precária: não há bicicletário seguro e a falta de rampa é um importante obstáculo. Cabe ainda lembrar que só é permitido embarcar com bicicleta nos trens depois das 21h. O quebra-cabeça sem sentido só desestimula a conexão. Ao dedicar um vagão para isso o dia todo, garantindo o acesso dos ciclistas, a necessidade de baldeações seria menor no transporte público.

O tempo perdido para se locomover sobre trilhos, assim como o alto custo, também restringem o acesso ao serviço. Agravada pela pandemia, a situação do ramal de Santa Cruz vai de mal a pior. Hoje o trem expresso funciona apenas entre às 4h e 6h25 e das 16h40 às 19h, com intervalos irregulares entre 10 e 20 minutos. Conclusão: a viagem do trabalhador dura quase duas horas de Bangu ao Centro. A volta do expresso em período integral precisa acontecer urgentemente, com os trens circulando em intervalos menores do que 10 minutos na hora do rush. A ausência do expresso afasta os passageiros, que trocam o transporte pelo o de ônibus, van ou carro. Assim se chega ao ciclo vicioso que vivemos. Com menos passageiros a SuperVia encontra justificativa para a redução no número de composições, que vivem superlotadas, e o aumento do valor das passagens. Cabe aqui a ressalva de que, atualmente, quem ganha um salário mínimo e usa o trem todo dia gasta mais de 20% do que recebe só com passagem. 

A questão da segurança do sistema também é dramática. Este ano, a SuperVia foi condenada a pagar R$ 200 mil pela morte de um jovem de 19 anos que foi arremessado dos trens e atropelado. A realidade é tão perigosa que a organização Casa Fluminense produziu um livro relatando as vidas perdidas nas vias ferroviárias. A obra “Não foi em vão” mostra que de 2008 a 2018 atingimos a triste marca de 368 homicídios culposos por atropelamento na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esse cenário evidencia a urgente necessidade de melhorias, com a instalação de sinalização e aviso sonoro e de obras de infraestrutura. O cenário todo é muito negativo, mas há solução. Para isso, o governo estadual precisa tomar o controle efetivo do sistema. 

O caso de Bangu mostra a urgência de resolver os problemas do modal. O bairro é o segundo mais populoso do Brasil, possui duas estações de trem e ainda assim sofre com o desenvolvimento urbano precário. O governo do estado tem papel-chave nesta discussão. Ele poderia firmar parcerias internacionais para desenvolver boas práticas e replicá-las em territórios da Baixada Fluminense, melhorando a qualidade de vida de todos. Um exemplo desta ideia é o Conectar Queimados, uma parceria com o Banco Mundial. Além de projetar novas habitações, a iniciativa também aproxima as oportunidades de trabalho, comércio e lazer, enquanto torna os deslocamentos mais seguros e acessíveis. 

É possível tornar o sistema de transporte ferroviário digno. Com esta certeza, seguiremos na luta até que esse direito seja garantido ao povo.

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