Papo de Talarico: Entenda o Império da Luz que paira sobre o Festival do Rio

Crítica Império da Luz , Festival do Rio, por Alvaro Tallarico
Micheal Ward e Olivia Colman em "Império da Luz" (Courtesy of Searchlight Pictures. © 2022 20th Century Studios All Rights Reserved)

Para um fã de cinema como eu, o Festival do Rio é um presente. A oportunidade de ver filmes do mundo todo e encontrar pérolas no meio de salas escuras. Interessante como sempre me dá uma certa emoção ver a reunião de pessoas que amam a arte mas, em especial, a Sétima Arte, um termo estabelecido por Ricciotto Canudo em 1911.

Na manhã de uma quarta-feira nublada, fui ver Império da Luz, em sessão fechada para críticos e jornalistas. É o tipo do filme ideal para abrir um evento tão especial, por ser mais uma bela obra do diretor Sam Mendes (que ganhou Oscar com Beleza Americana em 2000), e que terá sua pré-estreia no Festival do Rio nesta quinta-feira, dia 06 de outubro, às 20h no Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, somente para convidados. Porém, também haverá uma sessão aberta ao público, no mesmo local, às 23h45, com ingressos gratuitos.

A saber, Sam Mendes nunca me decepcionou. No ano de 1999 vi Beleza Americana mais de uma vez no cinema. Fiquei encantado com a visão do cineasta. Era apenas um pré-adolescente. Dessa vez, com Império da Luz, Sam homenageia e fala de cinema, de luz, como a luz é cinema, como o cinema vem da luz e como a vida precisa de poesia. Entendeu? Calma. Saí do filme emocionado, com os olhos ainda lacrimejantes, pensando como a arte lumina. Fui credenciado pelo portal de jornalismo cultural Vivente Andante. Outro dia, fui na coletiva de imprensa do filme A Mulher Rei, com Viola Davis, também por esse portal. Contudo, assim como a coletiva virou tema da minha coluna semanal no Diário do Rio, Império da Luz seguiu o mesmo caminho.

Imortal

No corredor de entrada do resiliente Estação Net Botafogo, aquele burburinho dos cinéfilos. Aguardavam a abertura da sala 1 para encontrar mais uma vez esse império da luz que nos inspira diariamente, nesse ciclo contínuo onde a arte imita a vida e a vida imita a arte. Na Rua Voluntários da Pátria, o cotidiano seguia normal. O caminhão de mudanças barulhento, as buzinas incessantes das motos, como abelhas trabalhadoras zunindo por entre os carros. Na calçada, a jovem passeava com seu cão. O rapaz com sua mala de viagens. A Livraria da Travessa com seu jeito de portal para outras dimensões. E o verde das árvores, imortal.

Dentro da dimensão cinematográfica, Império da Luz conta uma história ambientada numa cidade costeira da Inglaterra durante os anos 1980, focada em relações humanas e a magia do cinema. Entre cenas singelas e uma atuação digna de Oscar de Olivia Colman, fiquei feliz por ter esquecido a caneta. Costumo ver os filmes com um bloco e uma caneta. Levei o bloco. Pedi para minha amiga Andréa Cursino, do Cinema Para Sempre, uma caneta emprestada assim que percebi meu esquecimento. As luzes apagaram. Liguei a lanterna do celular para ela procurar na mochila. O filme estava começando e nada dela encontrar. Desisti e voltei ao meu lugar. Foi ótimo. Não desviei minha atenção um único segundo daquela película comovente que dá uma aula sobre projeção e cinema.

Os créditos subiram após o lindo final. Ali permaneci, sem pressa. Fui ao banheiro quando não mais aguentei. Lá fora, os críticos discutiam entre si como o início mostrava vários cantos do cinema e outros detalhes tão maravilhosos das escolhas de Sam Mendes. Só pensava na emoção que sentia. Algo de transcendência. Enquanto escrevia, ainda na rua, no celular, essa crônica crítica – ou seja lá o rótulo que queira dar – duas rolinhas se alimentavam no gramado em frente a entrada do metrô. Alheias a tudo e a todos; e todos assim, da mesma forma, totalmente alheios a elas.

É fascinante como a vida acontece ao redor quer você fique parado ou não. Enquanto ao sair do filme Memória, conseguia ouvir tudo de forma diferente; após Império da Luz, eu via as coisas diferentes. Estava mais atento à luz. Como é gostoso presenciar uma arte que atinge sua sensibilidade. Como é bom quando um filme consegue englobar de maneira tão eficiente tantas coisas. Fotografia, literatura, ilusão, verdade, amor, amizade. Gratidão, Sam Mendes.

Além disso, assim que saí da sala de cinema um rapaz usando a camisa da seleção francesa gentilmente ofereceu-me o produto que vendia. Estava com a identidade na mão, dizia que era seu aniversário. Eu disse tudo bem, meu amigo, não precisa provar nada. Mais importante é que você está aí trabalhando e eu quero sim. Comprei um saco de bolinhas de chocolate com 2 reais, toquei no seu ombro e disse parabéns. Ele sorriu com sinceridade.

Por fim, o Festival do Rio acontece entre os dias 06 e 16 deste mês de outubro. Que seja um império da luz a inspirar um reinado cheio de gentileza, empatia e carinho com o próximo.

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