Livro ‘A mesa do Rei’ conta história das louças da época do Brasil de D. João VI

A obra fotográfica demorou dois anos para ser finalizada, e retrata peças de mais de 200 anos que podem valer milhões de reais, e por vezes só podem ser encontradas em coleções particulares.

Foto: Divulgação/ André Luiz Rigo

A vida da Família Imperial no Brasil sempre deu muito o que falar; o país viveu séculos sob a monarquia portuguesa, e quase 100 anos como um Império Monárquico independente. Tudo sobre o rei e os imperadores é, ou ainda será, uma notícia que atrai muitos olhares, sejam curiosos ou de estudiosos. André Luiz Rigo, Catarinense, pós-graduado em Direito, é uma dessas pessoas que foi atraído pela história cativante da família real, principalmente desde sua fuga para o Brasil, em 1808, e sua vida no Rio de Janeiro, capital do império.

André conta ao DIÁRIO DO RIO, que o fascínio pelo período Real surgiu na infância: “o Brasil Imperial sempre foi minha matéria preferida nas aulas de história”. já adulto, ele começou a colecionar objetos do período imperial, “o assunto sempre esteve presente em meu dia a dia”, afirma Rigo. E ele não está sozinho: há uma legião de colecionadores – a maioria VIP, é verdade – das louças históricas. Peças estão nas coleções dos Monteiro de Carvalho, dos Setúbal e Villela (Itaú), assim como outros grandes nomes da economia nacional. Recentemente mostramos aqui que um singelo par de tigelinhas do século XIX foi vendido num leilão no Leme por nada menos que….310 mil reais!

André tem um afeto especial pelas histórias das peças de porcelana que eram usadas por reis, imperadores, príncipes e demais autoridades do Império no país, assim como na época em que o país sediou – desde o nosso Rio de Janeiro – o império português, como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A mesa da Dinastia dos Bragança (isso mesmo, antes de serem também Orleans), é o alvo principal deste livro.

E predileção do advogado pelas peças, o levou a criar uma página no Instagram denominada “Barão de Perdizes”, com o objetivo de propagar imagens e histórias dessas porcelanas, que são consideradas verdadeiras obras de arte, muitas vezes desconhecidas pelo grande público, e assim contribuir para o resgate da história do Brasil, tão negligenciada e que pode, em muitos aspectos, ser contada por meio das porcelanas.

Rigo contou ao DIÁRIO DO RIO, que com o incentivo de seguidores e colecionadores que elogiaram seu trabalho na internet, ele se estimulou no aprofundamento e isso fez nele surgir a ideia de um livro. Já se haviam passado décadas desde um último livro lançado no Brasil sobre o tema.

E assim nasceu o livro: “A mesa do Rei. As porcelanas de Dom João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarves”.

O advogado disse que foram mais de dois anos de pesquisas, estudos, leitura de livros antigos, anuários do Museu Imperial, artigos, catálogos de antigos leilões, além de trocas com Museus e instituições que possuem acervo do Império, bem como incontáveis conversas e trocas de e-mails com colecionadores, antiquários e leiloeiros para a finalização do livro, uma obra fotográfica, sobre os serviços de porcelana de Dom João VI.

André Luiz Rigo com sua obra fotográfica

“Ele é uma obra executada em capa dura de alta qualidade e o interior é integralmente em papel couché colorido, reunindo uma série de informações e imagens históricas, além de muitas fotografias de variadas peças de cada serviço de porcelana de Dom João VI”, disse André Luiz Rigo, que dedicou o primeiro volume às porcelanas utilizadas por Dom João, os chamados “serviços reais”; alguns datam do século XVIII e outros do XIX. Há peças no Museu Histórico Nacional, no Rio, na Fundação Emma Klabin, no Museu Carlos da Costa Pinto na Bahia e em museus históricos do mundo todo.

A obra traz uma breve biografia de Dom João VI, além de esclarecer o que é um serviço de porcelana; quais as variedades de porcelana que El Rey trouxe para cá e as que encomendou já desde o Brasil; e além de farto material fotográfico de peças que ainda existem, esclarece onde foram utilizados cada um dos serviços de porcelana. Uma coisa bacana na obra é que dá acesso para o público a peças que nem os museus têm, como por exemplo o par de Wine Coolers (baldes de gelo), que só existem em coleções particulares.

O autor afirma que não existe qualquer obra atual sobre a temática e que a obra nasceu pela carência de material sobre o assunto, “razão da importância de uma publicação que possibilite a pesquisa mais aprofundada dos detalhes das peças e com rico acervo fotográfico colorido“. Uma obra de referência foi do celebrado autor Edino da Fonseca Brancante, datada de 1981, e sem fotos de alta qualidade.

Um dos serviços mais famosos e que é,detalhamente, abordado na obra é o conhecidíssimo “Serviço dos Pavões”, produzido entre 1760 e 1795. Uma coleção de jantar Real, confeccionada em porcelana de pasta dura, de finíssima qualidade, que foi produzida na China do Imperador Qianlong, sob encomenda, para a Europa, trazido e comercializado pela Companhia das Índias Ocidentais. O histórico serviço de louças de jantar é considerado um dos mais belos da história da humanidade. Considerado uma verdadeira jóia, partes do serviço já foram vendidas por mais de um milhão de reais. Um único prato costuma ser vendido em antiquários por mais de 4.000 reais, em estado regular de conservação. Uma sopeira pode chegar a 50 mil reais.O trajeto seguido pelas porcelanas pode explicar parte desta mítica. Trazidos a pé desde a cidade produtora até Cantão, na China, depois eram embarcados em navios que percorriam milhares de quilômetros até Portugal. E depois, embarcados às pressas em barris para o Brasil, quando da fuga de Dom João pro Rio. Por fim, com a queda da monarquia, um leilão esquisito dispersou as peças do dia pra noite pelo mundo todo”, explica o colecionador Cláudio André de Castro, que teve algumas peças fotografadas para o livro.

Foto: Prato “rechaud”, que serve para manter a comida quente ou fria, colocando-se água quente ou gelada no buraquinho – Livro ‘A mesa do Rei’

Em formato redondo, ondulado, oitavado ou recortado, os pratos são de porcelana branca, encaroçada, decorada com esmaltes nas cores habituais da chamada “família rosa”. Em sua borda figuram quatro ramos postos em cruz e a orla rouge de fer, alternada com chamativas estilizações de ramos na cor azul. No campo, está o casal de pavões sobre rochas e um ramo com grandes peônias, separados da borda da peça por um friso flordelisado. Além de pratos de vários tamanhos, foram confeccionadas sopeiras de vários tipos, terrinas, molheiras, travessas de vários formatos, manteigueiras, meleiras, wine-coolers e tigelas. As peças mais cobiçadas são chamadas “peças de forma”, que diferem dos pratos e travessas pela confecção mais intrincada.

Em novembro de 2019, peças que formavam uma parte do serviço suficiente para o uso fizeram parte de um leilão milionário. 73 peças de louça de D João VI foram a leilão aqui no Rio, partindo de um lance inicial no valor de R$ 400 mil. Especialistas consultados pelo DIÁRIO DO RIO avaliaram o conjunto em meio milhão de reais na ocasião. Em leilões em São Paulo, Londres ou Nova Iorque, atingem valores surpreendentes.

A denominação “Serviço dos Pavões” se dá pelo fato de que as louças são decoradas com esses animais como elemento principal, o que é considerado pelos especialistas uma influência francesa.

“O Serviço dos Pavões tem ímpar relevância na história do Brasil. Trazido pelo Príncipe Regente de Portugal, depois D. João VI, fundador do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, fez parte do acervo da corte que protagonizou a maior mudança na vida do Brasil português. Do ponto de vista artístico, é sem dúvida o mais belo exemplar da louçaria trazida pelos monarcas portugueses. O tema e o padrão decorativo do Serviço dos Pavões não são únicos, foram amplamente reproduzidos. Porém, variações notáveis nas bordas de cada aparelho nos permitem diferenciar os que pertenceram à Real Fazenda de Santa Cruz, de D. João VI, de seus congêneres. Isso torna inconfundíveis as peças históricas”, destacou na época o empresário Paulo Barragat, colecionador que tem peças deste histórico Serviço.

“As peças de forma (todas aquelas que não são pratos e travessas) são as de maior valor e as mais procuradas por todos, como manteigueiras, bowls e sopeiras”, segundo Cláudio Castro, empresário carioca que possui uma grande coleção das famosas louças de D. João VI.

No livro são também descritos outros serviços de porcelana que foram de Dom João, indicando a época de produção, os detalhes de cada peça, seus significados e simbologias, tudo para que tanto colecionadores quanto amadores possam ter contato com o maior número de detalhes, por exemplo, se eram usados no Paço Imperial do Centro, ou no Paço de São Cristóvão (o lindo museu incendiado era assim chamado na época) ou mesmo na Fazenda de Santa Cruz – bairro considerado agora “imperial”, por conta desta história. Algumas peças não haviam sido fotografadas em livros ainda.

O livro possui um especial significado para os amantes da história, pois o resgata o histórico das peças, bem assim a preservação dos costumes de mesa daquela época. São inerentes ao próprio processo de formação da nacionalidade brasileira, uma vez que muitos dos serviços de porcelana eram estampados com brasões nacionais, cuja importância é retratada na obra. Também houve pratos brasonados com as armas da república, mas esta é outra história!

O livro é uma leitura leve, com muitas imagens de importância histórica. Isso tudo você encontra em “A Mesa do Rei. As porcelanas de Dom João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarves”.

O autor planeja lançar, no futuro, um outro livro sobre as porcelanas do período Imperial, que podem incluir as louças da nobreza Brasileira, além dos serviços mandados fazer por Dom Pedro I e Dom Pedro II.

Como comprar o livro:

O livro está disponível para compra através do Instagram Barão de Perdizes. Com o valor de R$149,00 reais + o frete.

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1 COMENTÁRIO

  1. graças aos colecionadores particulares, temos acesso a obras raras de imenso valor. e que contam nossa história de forma originalíssima! parabéns ao autor. ;-P

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