Por André Delacerda

Dando prosseguimento a matéria sobre a moda carioca, o Diário do Rio traz para nossos leitores uma entrevista com Roberto Meireles, um dos criadores do Instituto Rio Moda.

 

Roberto é um homem visionário, e muito profissional no que faz, pois já atua há 18 anos, nas áreas educacional, de marketing e gestão com muito sucesso.

 

Atualmente, ele se engaja neste projeto inovador, que busca ser o centro de discussão e fomento da moda carioca. Não se trata simplesmente de mais uma central de cursos, mas sim, um local, onde estilistas e profissionais da moda farão um fórum permanente para criar, descobrir e reinventar a moda. Projeto este que, certamente, colocará mais uma vez o Rio em destaque, como centro disseminador de tendências da moda. Unindo a prática já existente, com um importante fator, que é a base de sucesso para qualquer forte setor econômico de destaque internacional: a pesquisa e o conhecimento.

 

Nesta entrevista ao Diário do Rio. Roberto fala de como surgiu a idéia do Instituto Rio Moda. Da importância de se aliar ao processo produtivo, o conhecimento e o aprimoramento. Sobre a posição do Rio no cenário de moda internacional, relatando inclusive, que vários cool hunters vêm ao Rio, pesquisar o que pode virar tendência mundial no mundo da moda. Além de falar de como o Rio se firma cada vez no mercado de moda internacional.

1 Diário do Rio – Como surgiu a idéia de criar o Instituto Rio Moda?

Roberto Meireles – O embrião do que hoje é o Instituto Rio Moda surgiu em dezembro de 2007, como parte de uma conversa entre Alessandra Marins, estilista e consultora de Moda, e Astrid Monteiro de Carvalho, empresária do setor, que pensavam em criar um espaço em que pudessem compartilhar com outros profissionais o imenso acervo de revistas de Moda que ambas reuniram disciplinadamente ao longo dos últimos dez anos. A idéia incluía a promoção de alguns cursos de curta duração e encontros de interessados no tema, algo assim como uma “Casa do Saber” voltada para a Moda. Depois de mais ou menos um mês de trabalho luciférico em que a iniciativa ganhava forma, bem no plano das idéias, as duas me procuraram para dar um caráter mais estruturado ao projeto, uma vez que tenho pelo menos dezoito anos de experiência com Educação, boa parte deles como gestor de universidades privadas e outras iniciativas mais autorais neste campo. Logo no início da conversa, percebemos todos que o que era para ser a “Casa da Moda” poderia cumprir um papel bem mais amplo do que o de uma revistoteca temática bem organizada e uma central de cursos de Moda. Analisando as demandas de um setor em expansão, que gera uma quantidade imensa de empregos no Brasil e no mundo, a partir de estruturas cada dia mais complexas, determinamos as carências em termos de produtos educacionais de boa qualidade e desenhamos o Instituto Rio Moda: um centro desenvolvedor de competências profissionais no campo da Moda, onde se valoriza a criatividade e a autoria como vias de geração de valor, ancorado nos melhores fundamentos do “aprender fazendo” e profundamente comprometido com o desenvolvimento da indústria. Na não basta ser criativo, tem que ser “acabativo” também.

 

Diário do Rio – A moda é coisa para ateliê ou é algo acadêmico? Onde estas partes se encontram e qual a importância de se unir prática com conhecimento, no setor da moda?

Roberto Meireles – Quanto mais me enfronho no tema, o que já faço a pelo menos dezesseis anos – desde que me casei como uma estilista – entendo que não precisa ser uma coisa ou outra. E esta conciliação tem-se tornado especialmente forte nos últimos anos. No inicio do mês de outubro estivemos no IV Colóquio de Moda, em Novo Hamburgo, e ficamos impressionados com mais de 900 pessoas de todo o Brasil discutindo Moda profundamente, em mais de 150 sessões técnicas, comunicações orais, apresentações e grupos de trabalho. Era a academia pulsando no melhor do seu jovem vigor. No Brasil, a quantidade de cursos superiores de Moda cresceu mais de 1.000% nos últimos cinco anos e – pra bom entendedor – isso quer dizer alguma coisa. Ao mesmo tempo, o setor mantém o seu glamour criativo, bem próprio dos ateliês, onde se cria (ou se copia) padronagens, estampas, roupas e acessórios, elementos constitutivos da Moda, como tradução de tendências e reflexo de comportamentos. A academia e o ateliê encontram-se na medida em que as empresas crescem e se complexificam. Os processos e a globalização tornam perfeitamente possível criar uma estampa no Brasil, imprimi-la na Espanha, confeccionar as pecas na Colômbia e vende-las nos Estados Unidos, onde são compradas por brasileiros! Estas estruturas mais elaboradas necessitam de profissionais mais gabaritados e em maior numero, o que gera demanda para a academia. E ai que estas partes se encontram e, por entender que a pratica devidamente aliada ah teoria conforma o chamado “profissional completo”, o Instituto Rio Moda lançou-se em setembro último.

 

O mercado de moda brasileiro, e principalmente a carioca, deu um salto de qualidade nos últimos anos, parte disso vem através da criatividade dos profissionais que lidam com o mercado. Porém sabemos, uma indústria de moda desenvolvida e competitiva, não é só feita somente de criatividade, mas de desenvolvimento do capital humano, que atua nesta.

 

Diário do Rio – Em que parte desse contexto entra o Instituto de Moda? Qual o seu papel?

Roberto Meireles – Criatividade e autoria são elementos fundamentais para consolidar uma identidade à Moda brasileira. Elas agregam valor a um produto que transpira um life-style que é desejado pelo mundo inteiro. É claro que você pode se contentar em montar uma coleção inteira a partir de pecas copiadas da estação anterior no hemisfério norte, mas, na melhor das hipóteses, suas cópias terão que ser vendidas por um preço menor do que os originais que lhe serviram de inspiração. O Rio, especialmente, vende muito no exterior e os cool huntersnorte-americanos, asiáticos e europeus vivem por aqui farejando tendências e novos padrões de comportamento. O mais engraçado (ou mais triste) é que eles vêm aqui captar as tendências que caracterizarão as coleções européias que acabarão copiadas por estilistas brasileiros… Não é a toa que o Nizan Guanaes investiu milhões na produção do Rio Summer, evento “top of class” que pretende vender moda praia e alto verão para 100 mega compradores internacionais. Nizan, como muitos outros empresários de visão, sabe que o Rio é a mais significativa referência brasileira de exportação de Moda – com todo respeito ao que se faz em outros locais do país – e ele não está jogando para perder. Em meio a este ambiente, no mínimo estimulante, é fundamental que se concilie a genialidade do processo criativo ao capital humano por você mencionado. Estilo tem que caminhar junto com as competências de gestão, sem as quais o estilista acaba quebrando a cara depois de uma ou das coleções. As contas não fecham se não houver gestores de verdade no processo, mas as empresas, ah essas fecham – e como fecham. Através das chamadas oficinas de desenvolvimento, o Rio Moda atua como uma pinça, com dois braços – um que cuida do processo criativo-autoral e outro que dá conta dos processos de gestão, considerando todas as suas especificidades na industria da Moda.

 

Diário do Rio – Durante a leitura do material do Instituto, pude ver insistentemente a palavra, educacional em pauta. Qual o diferencial do modelo educacional proposto pelo Instituto Rio Moda?

Roberto Meireles – Mais do que o guardião de um currículo, o Instituto Rio Moda pretende ser um ponto nodal de uma rede que envolve diferentes profissionais, pesquisadores e estudantes, promovendo o intercâmbio entre os diversos agentes e aumentando o acesso aos meios educacionais. Isso dá-se por meio de estruturas relacionais intencionalmente montadas para facilitar o acesso a esses recursos a todos os que queiram procurá-los para aprimorar sua formação, estabelecendo pontes entre as pessoas e os recursos educacionais (workshops, visitas guiadas, viagens de estudo, colóquios, etc). Nossa ação visa descobrir, aprimorar e alavancar talentos, promovendo a construção de trajetórias de conhecimento por meio da integração da diversidade de experiências e da inclusão de todos os que se relacionam com a Moda, a partir da aproximação de saberes individuais, empíricos e acadêmicos, e da troca de experiências. Temos como objetivo primordial contribuir para profissionalizar o mercado e promover a disseminação do pensamento de Moda, a partir de uma rede de formada por profissionais, educadores, estudantes e interessados, empregando uma abordagem educacional livre, sem pré-requisitos, que preencha as lacunas eventualmente deixadas pelo ensino formal, atuando a partir dos saberes que temos como um grupo. Acreditamos que as pessoas são educadas quando se integram numa rede de relações, que envolve todos aqueles que, de alguma forma, podem compartilhar experiências, vivências, informações e objetos de conhecimento, o que constitui o nosso principal diferencial.

 

A indústria da moda é bem vasta e envolve desde a criação, canais de distribuição, recursos, o design é um ponto chave.

 

Diário do Rio – Você poderia nos fazer um breve relato de quão importante e abrangente é essa indústria?

Roberto Meireles – Em 2007 o Brasil já era o 6º maior parque têxtil do mundo. Toda a cadeia produtiva formal soma aproximadamente 30 mil empresas, que produzem 7,2 bilhões de peças e consumem 1 milhão de toneladas de têxteis. No mesmo ano, o faturamento total do setor foi de US$ 34,6 bilhões, gerando

1,65 milhão de empregos.[1] Estes números sinalizam para elevado potencial de geração de negócios na indústria, que, a despeito da forte concorrência internacional, é merecedora de investimentos. No campo da moda, as empresas de pequeno e médio porte representam quase 70% da produção, concentrando a maior parte dos empregos do setor. Também no varejo de moda, observamos forte pulverização, o que acaba levando à organização de pólos por todo o país, para ganhar escala nas operações e para dar conta do crescente acirramento da concorrência, bem como para aumentar as chances de sobrevivência sob as difíceis condições no ambiente econômico-político e legal. Existem mais de 50 eventos de moda no Brasil, entre feiras, desfiles e semanas acadêmicas. Dois deles, o São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, têm hoje destaque na mídia em geral de todo o país, alimentando a cobertura da imprensa especializada. Outras iniciativas importantes têm sido empreendidas em Belo Horizonte e em Brasília, coordenadas pela Dupla (Heloisa Simão), que produz o Fashion Rio. Além disso, o Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, teve sua oitava edição em 2007 e ganha fôlego, sem contar o Oi Fashion Tour, itinerante, disseminando pelo Brasil a cultura dos eventos de moda e deixando um rastro de iniciativas locais nele inspiradas que contribuem para o fomento dos negócios no ramo da moda. Podemos ilustrar o crescimento do setor observando os números do São Paulo Fashion Week e do Fashion Rio, os maiores eventos do país que movimentam investimentos crescentes, mobilizam patrocínios astronômicos e geram receitas de centenas de milhões de reais a casa edição. Em 2007, o SPFW gerou receitas de 1,2 bilhão de reais, principalmente em exportações. O Fashion Rio, por sua vez, fechou R$ 430 milhões em negócios em 2007[2]. Contam com o apoio de governos estaduais, prefeituras municipais e outras instituições de peso da iniciativa pública e privada, devido aos excelentes resultados econômicos e sociais que trazem.

 

Diário do Rio – A imprensa nacional tem falado muito que o Rio, já está em segundo plano no mercado de moda, mas sabemos que o Rio tem importantes estilistas, marcas, uma industria de moda bem diversificada. O que o Instituto Rio Moda, pode nos falar sobre o mercado de moda carioca e sua importância no contexto nacional, e até internacional?

Roberto Meireles – O Rio foi berço de grandes estilistas de expressão nacional como Simon Azulai, Mauro Taubman, George Henri, Maria Cândida Sarmento, Andrea Saleto, Gregório Faganello e tantos outros. A despeito da descentralização do pólo criador e produtivo de Moda para São Paulo e outras capitais do Brasil, estes nomes nos deixaram uma referência que inspira novos talentos. Alem deste DNA, que faz muita diferença, a própria paisagem natural carioca, aliada à elementos únicos de nossa cultura, gera um ambiente de criação com imenso potencial exportador. Nos últimos dois anos, temos observado uma virada mais do que oportuna nos negócios do setor, com absorção de capital e mão-de-obra em diversos níveis, e esta movimentação é justamente um dos sinais que nos motivou a investir no Rio Moda. Viemos para fomentar a tal virada pela sua base mais importante: qualificação das pessoas que fazem diferença.


[1]http://www.revistafatorbrasil.com.br, consultada em 20 de março de 2007.

[2]http://mktdemoda.wordpress.com/2007/01/17/spfw-gerando-muito-mais-que-moda/ consultado em 28 de abril de 2008.

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