Papo de Talarico: Orquestra Sinfônica Brasileira encontra a Terra Sem Mal

Richard Scofano e Orquestra Sinfônica Brasileira
Richard Scofano e OSB na Cidade das Artes (foto: Alvaro Tallarico)

La Tierra Sin Mal. Uma lenda guarani sobre um local sem maldade, um tipo de paraíso que seria na direção do Oceano Atlântico. Talvez o famoso continente perdido da Atlântida? Conheci essa história através de um poema sinfônico de um argentino chamado Richard Scofano, um ás do bandoneón, instrumento musical que lembra o acordeon.

Foi no último sábado (17/09), quando, a convite da Prisma Colab, pude assistir a um espetáculo incrível e emocionante da Orquestra Sinfônica Brasileira na Cidade das Artes, com toda aquela imponência arquitetônica. A música que abriu a noite parecia europeia, mas foi feita por um cearense, era a Sinfonia em Sol Menor, de Alberto Nepomuceno, que é considerado o pai do nacionalismo na música erudita brasileira.

Mas foi em seguida que encontrei uma terra sem mal, através do bandoneón de Richard Scofano. Aquele hipnotizante instrumento mais parecia uma serpente bailando e criando novas formas e sons sob a magia daquelas mãos habilidosas. Paralelamente, a regência do pernambucano Lanfranco Marcelletti desenhava um dragão nordestino no ar com uma maestria carismática e dançante.

Os olhares cúmplices de alguns membros da orquestra entre si eram pura poesia e a concentração de cada um daqueles músicos fascinava. Presenciei uma harmonia de silêncios, notas, tons, movimentos, cuja união sugeria uma completude. Era como escutar uma conversa. O auge das leis da física aplicados numa arte que remete ao universo cheio de cores e diversidade.

A máquina de escrever

Aquele bandoneón, especificamente, trazia um algo de passado, quiçá de outras vidas. Um belíssimo instrumento de origem alemã que posteriormente foi parar nos bordéis argentinos e virou estrela do tango. Os lados daquele instrumento tem um jeito de máquina de escrever e a forma como os dedos batiam naquelas teclas me trouxeram uma marcante lembrança pessoal.

Na minha infância meu pai possuía uma máquina de escrever azulada cujo som nunca saiu de minha mente, era musical de um jeito mecânico. Talvez vê-lo utilizar aquele objeto tenha influenciado a escolha do jornalismo como caminho formador e profissional. E ali estava eu como jornalista cultural vendo uma máquina de escrever música. Ouvia o bandonéon, lembrava de meu pai, refletia sobre a arte e me apaixonava.

A Orquestra Sinfônica Brasileira, como de praxe, apresentou um espetáculo vibrante e emocionante. Afinal, a busca de uma terra sem mal faz parte da concepção de mundo do povo Guarani. Um lugar utópico sem rivalidades, violência, polarizações. Ou seja, tudo o que precisamos agora, mais do que nunca. Estar sentado ali, na segunda fila, foi como se, por pouco mais de duas horas, pudesse estar nesse paraíso tão sonhado.

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