Papo de Talarico: Sandman e a saudade do devoto de São Benedito

Sandman e Dia dos Pais na crônica do jornalista Alvaro Tallarico
Igreja de São Benedito (foto: Alvaro Tallarico)

Esses dias uma amiga que adora ler meus devaneios me provocou. Sugeriu, como quem não quer nada, que eu completasse a frase: “Só por hoje eu gostaria de…”

Só por hoje eu gostaria de abraçar novamente meu pai. Sentir seu cheiro de blusa velha. Passar a mão na sua calvície.

Só por hoje queria ouvir as mesmas histórias que repetia tantas e tantas vezes. Aquela do Coronel Beijinho, que adorava distribuir carinho; ou a de seu grande amigo Jair, que, segundo ele, era um motorista de primeiro nível, mas vivia batendo os carros que dirigia. Acho que ele queria me ensinar sobre a confiança excessiva na direção. Não poderei perguntar.

Achava tão chatas essas histórias. Meus amigos riam, porém eu não aguentava mais. E agora, como queria ouvir de novo.

Só por hoje, gostaria de pedir-lhe um conselho ou todos os conselhos do mundo. Os mesmos que não escutei quando ele disse.

Só por hoje, gostaria de escutar seu riso contido, assisti a ele fazendo a barba com aquela espuma branca no banheiro do corredor enquanto me via pelo reflexo no espelho.

Só por hoje, gostaria de ir ao mercado com ele novamente; dar de presente de Dia dos Pais um livro que ele não leria, acompanhá-lo num jogo de seu Fluminense.

Só por hoje, acharia graça novamente em seu radinho de pilha colado ao ouvido, enviaria qualquer e-mail que ele pedisse para os jornais reclamando de alguma situação do bairro. Ele sempre queria melhorar os arredores.

Só por hoje sentaria uma vez mais a seu lado no momento em que estivesse lendo o jornal e veria sua sandália franciscana ancorada na porta da casa.

Sonhos perpétuos de Sandman

Pensei mais ainda na provocação de minha amiga após ver episódios da série Sandman, baseada na obra de Neil Gaiman, na Netflix. No seriado, um grupo de pessoas resolve tentar aprisionar a dona Morte para reviver seus entes queridos. Acabam errando e aprisionam Morpheus, o senhor dos sonhos. Como consequência, milhares de pessoas não conseguem acordar, outras não dormem e muitos outros problemas surgem. É uma fantasia fascinante.

Por aqui nada de magia para ver meu pai de novo. No máximo, orações para sua alma, provavelmente uma vela no cruzeiro da Igreja dos Capuchinhos, uma de suas preferidas, pedindo que São Benedito, santo do qual era devoto, ilumine seu caminho onde quer que esteja.

Mas sim, por fim, só por hoje, gostaria de abraçar novamente meu pai. Nem que fosse em sonho.

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