Relógio da Igreja dos Mercadores é reinaugurado com cerimônia presidida por Bispo, depois de um século parado

A festa de reinauguração ficou lotada, e teve direito a bênção dada por Dom Roque no meio da rua do Ouvidor, sob os olhares interessados do povo que almoçava e circulava pela região, cada vez mais contagiada pela movimentação causada pelo templo dos mercadores; o clérigo lançou água benta sobre a Igreja e nos fiéis

Detalhe do relógio, em pleno funcionamento após 101 anos, da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, e seus ponteiros trazidos da Itália / Foto de Daniel Martins - DIÁRIO DO RIO

Os sinos começaram a badalar às 11:45, num ritmo frenético que anunciava que algo especial estava pra acontecer ali no encontro da rua do Ouvidor com o Arco do Teles. Incrédula, a população que almoçava nas dezenas de mesas e cadeiras que rotineiramente são colocadas no meio da rua do Ouvidor, assistia a uma cena incomum. O Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Roque Souza, paramentado com uma sobrepeliz (espécie de capa branca, com o símbolo da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores) alvíssima, acompanhado de um acólito (coroinha) cheio de garbo e carregando uma caldeirinha de prata cheia de água benta, preparava-se para iniciar, no meio da rua, a Missa Solene de reinauguração do relógio da igrejinha de 1750, que reabriu em junho em cerimônia presidida por Dom Orani. O relógio foi doado pelo Shopping Center Paço do Ouvidor e pela Sergio Castro Imóveis.

De repente, com a igreja apinhada de gente, um Coral com Orquestra dirigido pela soprano Juliana Sucupira, começava a cantar a todo volume a música litúrgica “Ecce Sacerdos“, em latim, e o bispo adentrou a igreja, depois de ser recebido solenemente à porta pelo comissário Provedor da Irmandade, o empresário Claudio André de Castro, vestindo sua opa (traje especial de membros de irmandades católicas). Devagar, beijando um crucifixo antes de entrar, encaminhou-se até o genuflexório (espécie de móvel onde se ajoelha pra rezar), fez uma oração, e encaminhou-se para a famosa sacristia onde ficam a célebre bala de canhão e a imagem de mármore de Nossa Senhora da Fé que protagonizou o chamado “milagre da rua do Ouvidor“, em 1893.

Nisso, uma multidão começou a se formar novamente, enchendo a Travessa dos Mercadores, beco que liga a rua do Rosário, com seus restaurantes mais finos, à rua do Ouvidor, com seus bares cheios de gente. Fanfarras e trompetes ressoam, e a orquestra começa a tocar uma apoteótica versão da música mais conhecida aqui no Brasil como “Vencendo Vem Jesus“, o clássico americano “Battle Hymn of the Republic“, aquele do “Glória, Glória Aleluia…!“. Nisso, pelo Arco do Teles, vejo uma procissão que parece saída de outras épocas. Um grande estandarte verde com a Santa Padroeira dos Comerciantes (a Senhora dos Mercadores) vem à frente de uma tropa de acólitos, com lindas e históricas peças de prata: cruzes, turíbulo (um incensário que os católicos usam, preso a correntes, que balançam), naveta (um porta incenso em formato de barquinho), lanternas, do próprio Bispo, vestido com uma belíssima casula dourada e vermelha, e um outro acólito de vermelho carregando o báculo (cajado do bispo) e a mitra (chapéu do bispo). Como se isso não bastasse para parar toda a região da igreja, vinha atrás o provedor da irmandade com sua férula (espécie de bastão que simboliza a autoridade dele na irmandade). Em volta, todo mundo tirava fotos e comentava como a revitalização daquele local tem movimentado o comércio. Enquanto isso, a rua do Ouvidor, limpinha, tinha patrulha de guardas municipais e PMs.

Eles todos enfileirados ali, com aqueles acessórios e roupas tão comuns no passado, recebendo tanta atenção do público lá fora, que observava em silêncio ou cochichando, com cara de admiração ou de surpresa – mas definitivamente eram caras “boas” – traziam uma certa nostalgia de uma época que não vivi. Novas fanfarras tocam, igualmente apoteóticas. O coral começa a cantar “Jesus, Alegria dos Homens“, a procissão finalmente entra no antigo templo elíptico, recebida por pessoas de olhos fechados, mãos estendidas, e alegre de estar presenciando aquele momento. Dom Roque anuncia que a Missa, além da ação de graças pelo Relógio que volta a andar, comemora a festa da Padroeira da América Latina, Santa Rosa de Lima. Concelebra a missa com o Padre Vitor Pereira, que todos os sábados preside as celebrações eucarísticas dos irmãos Mercadores.

A missa ainda teve um momento bem interessante, em que o Bispo lançou água benta sobre todos os fiéis presentes, seguindo uma tradição da irmandade, cujas missas têm sempre aspersão de água benta aos sábados e domingos. Parece que quando mais água atingia as pessoas mais felizes elas ficavam. Ao som da música Zadok the Priest, de Handel, o Bispo e o Padre prepararam a comunhão, e enquanto tocava Panis Angelicus, os presentes a receberam. Na homilia, o Bispo contou a história de Santa Rosa de Lima. Depois, uma Ave Maria de Gounod. Por fim, o provedor contou a história da irmandade, da bomba que atingiu a torre, e falou do novo relógio, convidando todos a receber a bênção final do lado de fora, na frente da histórica igrejinha que ficou fechada por 4 anos.

Ao som do tradicional “Aleluia de Handel“, que foi recebido com palmas pelos fiéis, caminhamos todos pro lado de fora da igreja, onde outros já esperavam de pé. De frente para o relógio, sob o sol de 40 graus do Centro Histórico do Rio de Janeiro, que parece renascer tendo como epicentro de desenvolvimento a região da Praça XV, o Bispo de 56 anos, formado em Filosofia e Teologia, leu a bênção que a Igreja Católica dá aos chamados “instrumentos técnicos”, que se aplica a relógios. O novo Relógio tem máquina e ponteiros vindos da Itália e funciona por eletricidade, sem necessidade de corda, como ocorre na maioria dos relógios de igreja; é interligado aos sinos, que tocam de acordo com o andar dos ponteiros. Depois de ler a benção, Dom Roque, cercado por quase uma centena de fiéis – sem contar o pessoal que assistia, com interesse, das mesas dos restaurantes – lançou água benta na fachada da igrejinha, que brilhava sob o sol forte. Ao fim, os sinos voltaram a badalar freneticamente.

Entre os fiéis, vindos da baixada, zona sul, zona norte e do próprio Centro, o assunto principal era os sinais de que o Centro Histórico vem se recuperando naquela região. Outros se perguntavam porque as outras igrejas não batem mais os sinos. “O relógio parado era algo que queria resolver, pois simbolizava e muito o tempo que esta irmandade e o Centro Histórico ficaram parados no tempo“, disse o provedor, em sua fala, depois de se confessar fã da trilogia De Volta Para o Futuro. Nada que está parado precisa continuar parado, é a lição que posso tirar da mini revolução que uma só andorinha está fazendo no Arco do Teles. Que venham outras.

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