Victer – Sede da Caixa Econômica, no Centro: uma Catástrofe Urbanística que pode terminar em fogo

Os painéis de Bandeira de Mello escondidos por caixotes, as belas colunas com cartazes e o perigo de incêndio no antigo prédio da CEF no Centro do Rio

Ao ler um artigo recentemente no DIÁRIO DO RIO falando sobre o abandono da Estação da Leopoldina, com sua arquitetura inspirada no Palácio de Buckingham da Inglaterra, confesso que fiquei refletindo sobre como o Rio de Janeiro vem sendo esvaziado numa série de atitudes de leniência, especialmente daquelas que tem vindo do Governo Federal e para alguns prédios históricos do Centro.

É claro que não dá para tipificar essa ação somente a partir desse último governo, pois ela se origina com a retirada da Capital do Rio de Janeiro, no início da década de 1960. Porém, existem casos simbólicos recentes em que isso se acelera, como a tentativa do último governo em retirar órgãos como a Ancine do Rio e até vender o Palácio Gustavo Capanema, que não foi concluída pois teve a venda suspensa por uma iniciativa da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ, através do seu Presidente André Ceciliano.

Já nesse primeiro dia útil do ano, ao final de uma tarde bastante vazia no Centro, resolvi fazer uma caminhada pela Cinelândia, quando um amigo engenheiro desde os tempos da antiga Escola de Engenharia da UFRJ, me chamou para tomar um Chopp com Batatas Fritas no Amarelinho, aliás, um programa tipicamente carioca.

Na caminhada de volta nos deparamos com a antiga sede da Caixa Econômica Federal – CEF, que ali teve a sua atuação, com esse magnifico prédio construído há mais de 50 anos, ali bem na esquina da Avenida Almirante Barroso com a Avenida Rio Branco. Nos vimos de frente em uma loja de produtos conhecidos como “quinquilharias”, aliás sem qualquer preconceito com esse tipo de venda, pois frequento muito como consumidor.

Resolvi entrar para ver até que ponto aquela bela loja havia preservado os lindos painéis de Bandeira de Mello, os expressivos Vitraux e também aquelas belas colunas ali desenvolvidas no passado, que eram motivo de visitação quando ali abrigava a sede da CEF do Rio de Janeiro e no seu térreo lojas bancárias e o acesso ao Centro Cultural da Caixa.

Para a minha surpresa e total espanto, ao adentrar a loja (dizem ser de uma cadeia lojista chinesa), registrei algumas fotos e constatei a situação caótica, que é um desrespeito ao Rio de Janeiro e à nossa história arquitetônica, e até um risco potencial para acontecer um grande incêndio devido a quantidade de entulhos, produtos altamente inflamáveis e caixas de papelão empilhadas, tapando as belas colunas, utilizadas agora como suporte para cartazes de promoções.

A cena é dantesca do “portal do inferno”… aqueles que falam em revitalizar o Rio de Janeiro não podem presenciar essa cena sem ter uma tristeza e indignação quanto ao que acontece em talvez um dos pontos mais nobres do Centro da Cidade e outrora o corredor da sede de grandes empresas.

A situação é tão grave do ponto de vista arquitetônico que, além de tirar fotos, não só das belas colunas servindo como suporte para colocação de preços promocionais, me despertou o alerta que qualquer engenheiro, com o mínimo de conhecimento de risco, pode apontar de que pode haver em breve um incêndio de grandes proporções com uma situação extremamente complicada de abandono desse ambiente e que poderá virar uma tragédia.

Por razões óbvias, além de fazer o registro nesse artigo, que certamente deve assustar os proprietários das cotas do fundo imobiliários que locaram esse imóvel e até da eventual seguradora, vai certamente servir de alerta imediata ao Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, pois me sinto na obrigação de remeter a eles, como fiz no passado com o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, que não levaram a sério e que alguns anos depois o colapso se consumou.

O belo prédio, de 22 andares, cerca de 50 mil m², feito para abrigar a Caixa Econômica Federal, que foi construído na década de 1960 com o Projeto dos consagrados arquitetos Paulo C. Mourão, J.A Tiedemann e Ney F. Gonçalves, tinha na sua parte inferior, até pouco tempo atrás, a instalação de um belo Centro Cultural da Caixa Econômica Federal que ostentava não só algumas das suas agências, mas um belo painel de Bandeira de Melo que foi destruído em um incêndio, e depois recuperado.

Além disso as colunas belíssimas que estranhamente ainda não estavam tombadas pelo patrimônio, o que não era necessário pelo bom trato que a CEF tinha, inclusive nas reformas dos seus espaços como me garantiu o Engenheiro Fernando Avelino, que já atuou como Gerente da CEF, e portanto nunca teria um tratamento deletério ou de qualquer usuário que sucedesse o espaço inclusive de um fundo.

O painel certamente está oculto pelos entulhos e não mais aparentes pela bela área de quase 4 mil m² de um edifício que tem cerca de 22 andares de altura, um dos maiores espigões construídos há época. Foi pintado no final da década de 1960 e deriva de um concurso promovido pela Caixa Econômica. A então Comissão julgadora era constituída pelos arquitetos responsáveis pelo projeto do edifício, por Thales Memória, então diretor e professor da Escola de Belas Artes, Max Newton Bezerra, então representante da administração da CAIXA, Sergio Lazaro Dantas, então representante do grupo de trabalho da nova sede e pelo pintor e crítico, Quirino Campofiorito, cujo nome teve maior votação processada dentre os concorrentes para representar a crítica de arte. Apresentaram-se 33 correntes dos 113 inicialmente inscritos, sendo o vencedor escolhido por unanimidade. O resultado do concurso foi: em 1° lugar usando o pseudônimo “o Mineiro”, Lydio Bandeira de Mello.

Esse cenário de total abandono se cerca pela obras do Museu no entorno com a reforma de fachadas, pela paralisação das obras do edifício sede da Petrobras, conhecido como EDISE, que levaram a seu fechamento temporário e a desmobilização de pontos que tinham movimentação gastronômica importante, como o restaurante do Clube Naval, e agora, com o anúncio do leilão, antiga sede do Banco do Brasil na Senador Dantas, contribuem para aquele cenário que só não é mais devastador em função da nova sede da ALERJ que foi segurado há cerca de um ano, conhecido atualmente como ALERJÃO, mas que foi sede do antigo BANERJÃO.

Não vale argumentar para justificar tal situação que a CEF, que vendeu esse prédio no passado por um fundo imobiliário privado, e que hoje foi para o chamado Porto Maravilha, não tem mais qualquer responsabilidade histórica, e que efetivamente é um imóvel privado. O que se questiona é todo esse processo em que claramente esses prédios icônicos tem sido abandonados, largados e tratados com um total desprezo por uma área com grande potencial que o Centro da cidade.

Advertisement

16 COMENTÁRIOS

  1. Por mim esse prédio da Caixa pode vir abaixo, trabalhei nele, horrível, as paredes me faz parecer que estou num filme de terror. Por mim botava abaixo ele e o puteiro chamado Ed. Central e voltava como era antes das construções de ambos. Quanto menos arranha-céus, melhor.

    Replanava o largo DO Carioca (e não DA Carioca pois vem do Rio Carioca o nome) pois o chão está todo fora de plano, quando chove se forma grandes piscinas. Removeria aquele bizarro respiradouro do Metrô fazendo dele menos obtuso.

    O RJ precisa voltar ao clássico, o Contemporâneo e Modernismo acabaram com toda a beleza da cidade.

  2. “Catástrofe urbanística”, era o estado do Largo da Carioca a dois anos atrás. A região estava tomada por moradores de rua, dependentes químicos, desocupados, vasilhas de quentinhas cheias de fezes espalhadas pra todo lado e o cheiro fortíssimo de urina que até hoje existe. Era comun em plena luz do dia a população ter que desviar de pessoas defecando pelos cantos, sem nenhum pudor e respeito. Existia até um pequeno barraco entre a mureta do metrô e a parede desse prédio da CEF. Os pets dessa população, corriam soltos pela área e até brincavam nos lagos do convento cheios de alegria, até que a administração esvaziou esses lagos.
    É admirável a preocupação do autor do comentário com painéis, vitraux, colunas e projetos arquitetônicos, afinal, aquele espaço nunca foi um ‘salão de artes’ e sim um estabelecimento público e, hoje privado. Qto ao acúmulo de matérias altamente inflamável no estabelecimento, qualquer loja de produtos conhecidos como quinquilharias, (segundo o altor sem qualquer preconceito com esse tipo de venda), com letreiros ‘americanizados’, também trabalham com esses mesmos artigos inflamável, portanto, os órgãos que expediram o alvará de funcionamento da empresa, tem a obrigação de avaliar possíveis irregularidades.
    Vejo a inauguração da Casa da Mamãe, um excelente negócio naquele trecho do Centro,
    sem contar com o aquecimento do mercado, geração de empregos (já citado por aqui) e, retorno econômico pra Cidade.

  3. Sou carioca mas estou fora do Rio há cinco anos, vim nesse final de ano e estive ontem no Centro e indo embarcar no metrô da Carioca vi essa loja, fiquei horrorizado , aquele local com seus vidros, as colunas e painéis tudo tomado por e empilhado na loja , por sinal vendendo produtos tipo “chineses ” mas de baixa qualidade e “jogado” na area. Vi a construção desse prédio, o incêndio, quando ficou pronto há 50 anos, e só confirma ,infelizmente, a total decadência da cidade. Lamento.

    • Porque não denunciou quando estava abandonado cheio de moradores de rua.
      Os chineses reformaram o prédio que estava jogado, não vejo desrespeito algum, apenas devem organizar melhor.

  4. Parabéns Wagner Victer! São de pessoas como você que o Rio precisa. Que denunciem, e que lutem contra essa covardia que tem sido praticada contra o nosso Estado. Infelizmente, existem uns bobocas que não conhecem nada de história ou de politica, que ao invés de juntarem forças para defender nosso estado, insistem em falar sobre o que não sabem.

  5. se para obtermos os fins utilizarmos qualquer meios o Rio se tornará no fim um grande camelódromo, sem ordem e lei e acreditar que as normas de ordenamento é diretamente proporcional ao ambiente que está sendo criado é não ter um olhar para a estrutura e as intervenções ou alterações que foram feitas no Centro nos últimos 10 anos.

    • Edesio, como assim nosso patrimônio? Aquilo é do locador, ele aluga e faz o que quiser com a propriedade dele.

      O desrespeito à propriedade privada é o grande início da explicação do porquê o Brasil é um país pobre.

  6. Algo precisa ser feito, comemoraram a abertura dessa loja e agora olha como está, um descaso total. Me surpreende que nenhuma instituição financeira seja lá qual fosse não ter se interessado pelo espaço. A XP pegou o teatro do jóquei, nenhuma outra grande empresa se interessou? Preocupante.

  7. E dá para acreditar que o Centro do Rio vai levantar. Dá pena ver prédios de sedes de bancos e empresas de poder na Rio Branco com lojinhas em seus térreos operando com negócios que não existiriam em cidades do mesmo porte, como por exemplo os prédios Bozano, Pereira Carneiro, CEF, etc…

    #revivercentroeocacete

  8. Sr. Wagner Victer, se está tão incomodado, porque não assume as lojas e paga o aluguel ao senhorio? Acorda, cara, o Rio de Janeiro empobreceu. No empobrecimento, a coisa aperta e o dinheiro some. No corre-corre para fazer o mês, a população vai deixando a arte de lado… Obra de arte vira… anteparo para preço de quinquilharia.

    Se você for lá encher os caras de exigências de bombeiros, o lugar vai ficar fechado e o centro mais vazio ainda e sem empregos. Que tal usar a sua influência em algo útil? Tipo reduzir burocracias e impostos para os negócios no Estado do RJ… reduzir a bandidagem… reduzir a desordem urbana…

    Enquanto isso, desfrute da “Casa da Mamãe”. Compre algo lá para ajudar a manter os empregos!

  9. A CEF na verdade foi para o prédio Passeio Corporate na rua do Passeio 38 e que pode ser acessado também pelas ruas das Marrecas e Evaristo da Veiga.

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui