“Bloco do Tombo”: servidores do Iphan pulam carnaval e ‘declaram’ virilha de alto funcionário “patrimônio” do país

“Fantasia” de carnaval de assessor do Presidente do Iphan em bloco carnavalesco formado pelo seu gabinete ridiculariza o órgão em meio a uma de suas maiores crises

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Patrimônios nacionais a perigo. Fazendas do século XVIII sendo demolidas por empreiteiras. Igrejas barrocas caindo. Tetos de bens tombados que desabam matando e ferindo pessoas. No Rio, a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens perece enquanto, mesmo condenado pela justiça, o Iphan enrola para realizar as obras, o Solar do Visconde de São Lourenço vira estacionamento depois de ser criminosamente incendiado possivelmente pelos próprios donos sem qualquer consequência. Poucos e abnegados servidores levam um órgão nas costas sem efetivo suficiente e sem ferramentas que possibilitem resultados reais à sua fiscalização. Não são mais feitas vistorias freqüentes para saber como andam os bens integrados nas igrejas tombadas – ou seja, uma porta aberta para o furto de peças sacras, e as igrejas são vendidas aos pedaços. O órgão não contrata mais arquitetos especializados para não pagar o salário que merecem e vem colocando outros profissionais sem formação alguma para cuidar do patrimônio brasileiro.

O cenário atual, portanto, inspira….o desfile de um Bloco de Carnaval do órgão. É isso mesmo. O Instagram de um assessor direto do presidente do órgão Leandro Grass mostra a grande festa da equipe de Brasília – afinal, a cidade de JK não tem uma grande história pra cuidar mesmo – no carnaval, com a festa momesca dos altos funcionários do Iohan. A equipe do político – derrotado nas eleiçôes de governador do Distrito Federal – aproveitou o dia de ontem para declarar “patrimônios” os genitais e a virilha de Caio Leal de Araújo, assessor especial de Grass, que aceitou, de bom grado. Caio é Assessor da Presidência e especialista em Ciência Política formado pela UnB. Mas parece ter lhe faltado um curso de timing e noções de liturgia do cargo.

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Caio é um das dezenas de servidores comissionados à disposição de Grass e do… Bloco do Tombo. E que tombo: o Dono os genitais tombados ganha cerca de 13 mil reais por mês e ontem mesmo caiu na folia, com a companhia de outros servidores do órgão que não tem plano de carreira e não cumpre sentenças judiciais. Enquanto o museu do trem está fechado há 6 anos e tem artefatos roubados, no Engenho de Dentro, e o patrimônio da sociedade brasileira está em risco, o gabinete do Presidente do Iphan quer mesmo é festa e nem espera o Carnaval começar pra declarar iniciado o feriado. Nem vamos falar do estado do rico patrimônio histórico da cidade de Goiás, logo ali do lado da turminha.

Mau gosto, grosseria, falta de compromisso profissional e de solidariedade com colegas que em todo o Brasil lutam pelo patrimônio, com grandes profissionais prestes a se aposentar e sem especialistas que os substituam em vista. A fantasia carnavalesca de Caio durante a festa bufa fazia um trocadilho entre o aplicativo adulto e geralmente pornográfico Only Fans e o Iphan: “Only Iphan”, com a sugestão “Venha desvendar meus patrimônios” – indicando num recorte os seus supostos dotes genitais – gerou revolta entre os funcionários da instituição e os defensores do patrimônio histórico nacional e circula no WhatsApp marcada “encaminhada com frequência”. Talvez não a mesma em que o patrimônio cultural dos brasileiros desaba.

A “brincadeira” de péssimo gosto se choca com a seriedade com que a maioria dos servidores veem o Iphan, instituição fundada em 1937 pelo então presidente Getúlio Vargas. Muitos técnicos da instituição viram na fantasia pré-carnavalesca usada pelo Assessor de Assuntos Estratégicos de Leandro Grass para sair no ‘bloco oficial’ uma “gracinha” altamente depreciativa da instituição e da luta incansável e brava em defesa do que resta do negligenciado e depredado patrimônio histórico nacional por parte dos servidores concursados do órgão federal. Eles ainda contam com um nível altíssimo de identificação com a instituição e sofrem, às vezes impotentes, na luta pela salvaguarda da cultura brasileira.

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A “fantasia” de Caio Leal de Araújo, cuja remuneração é superior a de arquitetos especializados com cursos até no exterior, também conta com um boné com a logomarca oficial do órgão federal, que deveria ser utilizado por servidores fiscais durante o serviço. A vestimenta trazia ainda imagem do rosto de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador do instituto, bem ao lado das partes-baixas do folião, destacada abaixo da cintura.

Ao que parece, o ocupante do cargo comissionado esqueceu que, no dia 5 de fevereiro, há três semanas, o teto da Igreja de São Francisco de Assis, em Salvador (BA), desabou, mantando a jovem Giulia Righetto, de apenas 26 anos, e deixando outras cinco pessoas feridas por estar em péssimo estado de conservação. O desastre foi antevisto por muitos, além de ter ceifado a vida de uma inocente também dilapidou parte da “Igreja de Ouro”, considerada uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no mundo.

Infelizmente, enquanto a preservação do patrimônio nacional enfrenta desafios críticos e quase intransponíveis, como a falta de recursos e plano de carreira para os servidores, um alto funcionário comissionado do Iphan usa a instituição e a imagem do seu fundador como pretexto erótico para atrair possíveis affairs. Aplaudido por colegas. Não custa nada lembrar que o DIÁRIO DO RIO, à baila da tragédia de Salvador, publicou uma matéria no dia 7 deste mês, dois depois do desabamento na “Igreja de Ouro”, denunciando o trágico cenário enfrentado pela Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do Mestre Valentim, na Praça XV, de propriedade da Ordem Terceira do Carmo.

Com 88 anos de atuação, o Iphan merece respeito por todos os serviços prestados à defesa do patrimônio nacional, agora comparado às partes  pudendas de um funcionário comissionado que é pago com dinheiro público. Enquanto a grana parece pelo ralo no trem da alegria carnavalesco, não há suficientes profissionais para conferir os acervos de bens móveis das igrejas tombadas, nem para analisar todas as centenas de leilões de arte on-line que vem sendo realizados pelo país, por onde se dissipam as peças furtadas.

O lamentável incidente pornográfico-carnavalesco demonstra a grave crise que afeta os altos escalões da instituição responsável por proteger a memória e a identidade do Brasil. Por menos comissionados momescos e mais arquitetos, museólogos e profissionais de belas artes.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Esse faz a cobra subir, a cobra subir, a cobra subir. Depois querem que a sociedade acredite no serviço público. Mas é tudo brincadeirinha com o seu, o meu, o nosso $$$. Viva o Carnaval.

  2. Não disse?É esse o nível dos apaniguados dessa porcaria!!!Um cabide de empregos(e bem pagos por nós)!!!!
    Não fazem absolutamente nada,a não ser infernizar proprietários e exigir o que eles não fazem!!Deveria ser extinto!!

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