Foto: Grupos do Facebook

Bem tombado pelo IPHAN, o magnífico Chafariz da Glória está presente na vida dos cariocas desde 1772. Restaurado nos anos 60 e em 2012, sua situação está se deteriorando rapidamente. Depois de um cuidadoso restauro que deixou o monumento funcionando novamente – com direito a uma pomposa reinauguração com a presença do então presidente da CEDAE, Wagner Victer, e de Carlos Roberto Osório, secretário de conservação da anterior gestão do prefeito Eduardo Paes – o belo patrimônio histórico foi completamente destruído nos últimos meses.

À época da restauração, Osório anunciou a criação da Gerência de Monumentos e Chafarizes da secretaria, que funcionaria numa construção que fica atrás do chafariz, onde funcionara uma antiga elevatória da CEDAE. Na ocasião, o então secretário afirmou: “Com as câmeras, quem pichar ou jogar lixo vai ser preso, e o caso será encaminhado à Polícia Federal, órgão responsável por crimes contra o patrimônio federal“. Parece que ficou mesmo na bravata.

O Chafariz da Glória, quando de sua restauração, em 2012. O monumento permaneceu bonito e relativamente bem cuidado até o fim de 2020, com esforços da comunidade. Em 2019, teve ornamentos furtados, mas continuava bem tratado. (Foto: IPHAN)

Autoridades do IPHAN chegaram a anunciar que instalariam uma parede de vidro de 13 metros de largura por 2,40 de altura, com 16 milímetros de espessura e resistente até a armas de fogo para protegê-lo, mas de toda esta promessa, só foi colocado um vidro laminado nas bordas dos tanques que compõem o chafariz.

Há quase 2 anos, em 15/10/2019, o chafariz ainda estava praticamente em ordem (foto), quando a decoração das suas bicas (em metal) foi furtada, sem conseqüência alguma. Até então, a resiliente associação de moradores da Glória vinha lutando para manter o monumento íntegro, sem qualquer tipo de auxílio da Guarda Municipal ou de qualquer outra autoridade. Do início do ano pra cá, o monumento foi totalmente depredado, e agora chegou ao ridículo de ser ocupado por algum tipo de organização política de moradores de rua, que utiliza o espaço público para “difundir opiniões políticas“, segundo declarou um comerciante vizinho.

Uma matéria da jornalista Lu Lacerda mostrou o chafariz em fim de 2019, quando os ornamentos de suas bicas foram roubados, mas pode observar-se que continuava em excelente estado. (Foto: Vera Dias / Lu Lacerda).

Além da sua completa destruição, o Chafariz também se tornou expositor de mercadoria falsificada de camelôs que tomaram conta da região. Segundo moradores do prédio vizinho, os camelôs só saem de lá quando os moradores de rua “politizados” chegam primeiro. “Não é incomum usarem o chafariz para incendiar fios que furtam de postes, da praça ou de prédios da região, pois derretem a borracha para poder vender por quilo o cobre“, disse José de Brito, freqüentador assíduo de um bar na rua Cândido Mendes.

A destruição dos monumentos da cidade pela população de rua e pelos receptadores de metais e outros materiais se tornou uma realidade aparentemente imutável. E os vereadores do Rio ainda chegaram ao ridículo de aprovar uma lei que deixa os espaços públicos da cidadeàs ordens dessa população.“, afirmou um morador da Glória que preferiu não se identificar, referindo-se ao PL 41/2021, de autoria do vereador Chico Alencar (Psol), recentemente aprovado pela Câmara de Vereadores. Segundo informações do deputado estadual Jorge Felippe Neto, do mesmo partido do prefeito, o controverso projeto deve ser vetado por Eduardo Paes. O DIÁRIO DO RIO publicou um editorial pronunciando-se pelo veto, que foi muito lido pelos cariocas (leia aqui).

Recentemente, a poucos metros do Chafariz, uma estátua do descobridor Pedro Álvares Cabral de autoria do premiado artista Rodolfo Bernardelli foi incendiada por um movimento político contrário a uma mudança na lei acerca da demarcação de terras indígenas, que vem sendo discutida em Brasília. Segundo 10 entre 10 historiadores, Cabral, após descobrir o Brasil, jamais retornou ao país e nunca teve qualquer tipo de participação seja na catequização ou em qualquer ação contra os povos indígenas. Travou algumas batalhas, mas no Oriente, contra os árabes, que também buscavam conquistar povos africanos e asiáticos. Por sorte, a bela obra de arte não sofreu nenhum dano definitivo.

Descrição Oficial do Monumento no site do IPHAN
Durante o vice-reinado do Marquês do Lavradio (1769-1779), foi construído o Chafariz da Glória, no ano de 1772, no qual se lê a seguinte inscrição em latim, aqui traduzida: “Luiz de Almeida, Marquês do Lavradio, que refreou as inundações do mar, construindo um grande muro, aumentou as rendas e dignidade do Conselho, restaurou os edifícios públicos, cortou os outeiros, igualou, tornou mais cômodas as ruas e renovou a cidade. O Senado e o Povo do Rio de Janeiro, ergue em 1772”. O chafariz foi restaurado na década de 60, em conseqüência da alteração sofrida em 1905, durante a reforma urbana do Prefeito Pereira Passos. Trata-se de um tanque amplo de cantaria para o qual vertem quatro bicas. Possui duas pilastras encimadas por entablamento e frontão curvo, o qual possui no centro um tímpano de alvenaria, o qual termina em cimalha, sobre a qual se encontra uma urna com forma caprichosa.

6 COMENTÁRIOS

  1. É uma selvageria. Terra de ninguém. O poder público não pode ficar omisso.
    E os vereadores deixem de ser demagogos e usem seus mandatos para o bem da cidade.
    Este projeto aprovado é um acinte e de uma imbecilidade ímpar.

  2. Sou Paulo Restaurador representante do “MORESP Movimento de Resgate do Patrimônio” e em 2018, junto com Marconi Andrade e Sheila Castelo representantes do “SOS Patrimônio” e o “AMA GLÓRIA Associação de Moradores da Glória”, fizemos uma nova restauração, não citada na matéria acima. Em 2020 o aspecto do Chafariz encontrava-se bom e preservado, devido essa intervenção que fizemos. Antes da nossa intervenção, o Chafariz estava em péssimas condições de uso e já havia moradores em situação de rua ocupando o local. Durante esse período de 2018 a 2020, manteve-se em ordem na medida do possível, mas em 2021 devido a atitudes anarquistas, a politização chegou a sua fachada.
    Estamos com um projeto de restauração total do Chafariz aguardando aprovação no Pronac, para restaura-lo novamente e entregar em ordem para a cidade do Rio de Janeiro.

  3. É verdade que alargaram a competência original da GM – o que pode ter sido um erro mesmo. Mas talvez o maior erro seja a GM existir, criando um enorme custo pro erário para alimentar um quadro de guardas que em sua maioria passam o dia mexendo no celular e em geral são fora de forma: não aguentam correr 50 metros pelas ruas caso alguém grite “pega-ladrão”.

    Mais importante é a pergunta do porquê depredam o bem público nesta cidade muito mais que em outras. E mais, quando se enquadra o(a) depredador(a), este(a) se escusa com um discurso digno de internação em um manicômio. Semanas atrás a desculpa para por fogo na estátua de Pedro Álvares Cabral que escreveram aqui foi “ah não, não é depredação… depredação é o que fizeram com os índios!”

    Os manicômios precisam ser reabertos urgentemente para alocar essa gente que luta ativamente dia a dia para tornar a sociedade mais pobre. Na falta deles, a cadeia servir-lhes-á perfeitamente.

  4. A Guarda Municipal, nos termos da Constituição, era para atuar na proteção dos bens públicos e serviços municipais…

    No entanto, o que fizeram?
    Desviaram a GM da sua missão originária.
    Aprovou-se uma Lei inconstitucional alargando a competência. Fizeram convênio com a Polícia, e passaram a atuar “em conjunto”.
    A GM na segurança da “ordem pública”. Ficar observando turistas a praia. Volta e meia dando dura em usuário e querendo prender por porte de droga. Além de perseguir camelôs enquanto outros pagam arrego e tem suas mercadorias poupadas. Assim como taxistas por parada irregular nas vias, aguardando passageiros, em detrimento de outros que também param nas vias…

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