William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

O Rio de Janeiro tem suas histórias e muitas delas são contadas por Igrejas e também pelas capelas invisíveis da Zona Sul ao subúrbio carioca

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Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um voo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal
Borges e Brant

Na cidade do Rio de Janeiro, neste ano de 2022, algumas paróquias retomaram rituais com a participação dos fiéis, que voltaram a ocupar as ruas, acompanhando as procissões em momentos sagrados para os cristãos como o Tríduo Pascal, que começa na Quinta-feira Santa e termina no Domingo de Páscoa e, mais adiante, nas celebrações do Corpus Christi, que ocorrem desde o período colonial, herdadas da cultura lusa, permanecendo com poucas alterações em muitas cidades do Brasil como Pirenópolis (GO), Ouro Preto, Mariana e Sabará (MG), Paraty, São Gonçalo, com seus tradicionais tapetes coloridos de sal e serragem e na própria capital fluminense.

Considerando a importância dessas datas para os cristãos e continuando uma coluna publicada em 05 de março do corrente sobre igrejas da cidade, é oportuno registrar alguns templos católicos que poucos conhecem, mas detêm importância como Patrimônio Cultural. São pequenas ermidas distribuídas por vários bairros, erigidas a devoções diversas, que merecem visitação pela sua singularidade arquitetônica ou exuberância da paisagem circunvizinha, mas geralmente invisíveis aos olhos da maioria.

De alguma forma, estas capelas podem remeter à tradição das festas juninas com seus arraiais, onde eram indispensáveis, além das barraquinhas de prendas e comidas típicas, a e a igreja, local do tão esperado casório.

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Capela nossa senhora cabeca vista frontal William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Conforme já publicado neste jornal em junho de 2021, a capela de Nossa Senhora da Cabeça, localizada na Rua Faro, no Jardim Botânico, é um dos mais antigos templos do Rio que mantém seu partido original. Sua construção data dos primeiros anos do século XVII, provavelmente para atender ao antigo Engenho d’El Rei. Trata-se de pequena edificação de planta quadrangular, precedida por um alpendre ou copiar, à feição de antigas capelas rurais nordestinas. É tombada pelo município e pelo IPHAN e está localizada aos fundos da Casa Maternal Melo Matos, inserida na mata Atlântica, aos pés do Corcovado.

Imagem recente William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Também do século XVII, localizada na Estrada do Camorim, Zona Oeste da cidade, cercada pelo verde do Parque estadual da Pedra Branca, está a pequena capela de São Gonçalo do Amarante, registrada neste jornal em março de 2017. O edifício original foi construído em 1625 para atender a Gonçalo de Sá, proprietário do Engenho Camorim. Ao longo dos séculos, a troca de proprietários implicou em modificações no edifício original, gerando a fachada com partido associado às primeiras capelas mineiras, um retângulo encimado por um triângulo, como porta principal central e acesso lateral à sacristia. Considerando-se seu valor histórico e arquitetônico, foi tombada pelo IPHAN em 1965.

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A menos de dez quilômetros deste templo, num pitoresco outeiro com acesso pela Estrada dos Bandeirantes, n. 16.064, em Vargem Pequena, está a capela setecentista de Nossa Senhora de Montserrat, edificação tombada pelo INEPAC, abordada por este jornal em julho de 2021. Fundada em 1732, em Vargem Grande, originalmente pertencia à Ordem Beneditina. Destruída pelas intempéries, foi reerguida em seu local atual, com fachada também semelhante às capelas mineiras. Este exemplar, semelhante à ermida de São Sebastião, em Ouro Preto, apresenta duas trapeiras simétricas, provavelmente destinadas a sinos originais. O interior, bastante modificado, ainda apresenta retábulo com referências ao rococó.

Capela Santo Criasto dos Milagres William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Nas áreas verdes da cidade, a capela Santo Cristo dos Milagres está implantada em uma pequena elevação ao final da Estrada da Paz, no Alto da Boa Vista. Foi construída em 1940 por um grupo de portugueses originário dos Açores, que tinha o orago como padroeiro. O edifício adota uma linguagem neocolonial, mas apesar de sua origem lusa, optou pela vertente hispano-americana em sua fachada.

Próxima a ela, na Estrada de Furnas, está o pequeno templo de Nossa Senhora da Luz, cujo acesso se faz por uma ladeira curta e sinuosa que conduz ao adro. No alto dessa elevação, circundada pelo verde, ergue-se a igreja à feição de capelas rurais europeias medievais, com torre única e fachada caiada contrastando com elementos estruturais revestidos de pedras, conferindo rusticidade ao edifício, também presente em sua nave única.

Capela Nossa Senhora da Luz William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Também na Floresta da Tijuca está a Capela Mayrink, pequeno edifício de composição neoclássica, construída em 1855 por Antonio Alves Souto, proprietário da Fazenda Boa Vista, dedicada à Nossa Senhora de Belém. Ao final do século XIX, após a venda da propriedade a Francisco de Paula Mayrink, a capela recebeu seu sobrenome como identificação. Em seu interior podem ser observadas réplicas de quatro telas de Portinari, pois as originais foram transferidas para o Museu Nacional de Belas Artes, por questões de segurança e conservação.

Capela Nossa Senhora das Gracas William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Caminhando para Zona Sul, a capela de Nossa Senhora das Graças, localizada em Botafogo, próxima de muito verde, foi construída em 1917, com repertório neogótico em sua fachada. Com acesso pela rua São Clemente, se encontra recuada, o que impede sua plena visualização pelos transeuntes.

Na Gávea, Dona Mary Pessoa, esposa do presidente Epitácio Pessoa, fundou, em 1919, a Casa Santa Ignez, instituição para assistência social, com auxílio das religiosas da Congregação Filhas de Sant’Anna. Junto às dependências da Fundação, foi construída uma pequena capela com torre única central e poucas aberturas, revestida de pedra, à feição de capelas românicas medievais, partido usual em templos religiosos desde o final do século XIX, conforme algumas premissas do ecletismo então vigente.

Capela Sao Joao Batista Museu da Cidade 1 William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Bem próxima dali, muito próxima ao edifício do Museu da Cidade do Rio de Janeiro, em uma discreta elevação, quase escondida pela vegetação, está a pequena capela dedicada a São João Batista. Foi construída em 1922 pelo então proprietário do solar, João de Carvalho Macedo, com uma discreta fachada associada às ermidas medievais, com sua porta em arco ogival. Cinquenta anos depois, por encomenda da Associação de Amigos do Museu da Cidade, o artista baiano Carlos Bastos iniciou a pintura de um afresco em seus interiores, uma obra responsável por grandes polêmicas que acabaram por fechar o templo por mais de trinta anos. Bastos incluiu nas paredes diversos personagens do cenário político e cultural da ocasião.

Interior da Capela Sao Joao Batista William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Na representação da vida do santo, São João era Caetano Veloso, Salomé ganhou o rosto de Marina Montini, Pelé aparecia como um anjo. Ali também estavam representados, Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Gal Costa e até o presidente da República, Garrastazu Médici. Protestos vieram de todas a origens: da igreja, por uma suposta heresia; do governo, pelo pretenso desrespeito ao general e também de opositores ao regime militar, devido a possível homenagem a um ditador. Estava criado um grande problema, que se arrastou por décadas, privando o visitante de observar o conjunto e tirar suas próprias conclusões.

087826016521257 William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Na Zona Norte, incrustrado no bairro Imperial de São Cristóvão, encontra-se um conjunto de casas denominado “Bairro Santa Genoveva”, construído no antigo Morro do Breves pelo Visconde de Morais em 1917. Numa praça, no alto do elegante conjunto, destaca- se a capela dedicada à padroeira de Paris. O pequeno templo, com referências explícitas ao edifício francês, foi edificado como agradecimento ao restabelecimento da esposa do Visconde, completando o cenário local que lhe vale o apelido de “Montmartre carioca”.

Capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceicao Grajau 1 William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Na área de proteção do Grajaú está uma pequena capela de 1918, contígua a uma das primeiras residências do bairro, à rua Grajaú, n. 27. Foi obra do construtor italiano Francisco Tricárico, também autor de algumas casas na região, como agradecimento a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Primeira igreja local, tornou-se o centro da vida comunitária até a inauguração da Matriz de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em 1931. O pequeno templo, originalmente de uso particular, apresenta fachada ornamentada com elementos medievais como o arco ogival na porta com sobreverga sinuosa e discretos coruchéus arrematando suas arestas.

igreja de Santo Antonio de Lisboa e Bom Jesus do Monte William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

No alto do Morro de Santo Antônio, à rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, tradicional bairro da Zona Norte, está localizada, desde os primeiros anos do século XX, a igreja de Santo Antônio de Lisboa e Bom Jesus do Monte. Até a construção de um shopping center no sopé da elevação, no terreno do antigo estádio do América, era possível visualizar sua torre, assim como desfrutar uma vista panorâmica de seu adro. O templo foi erguido pela comunidade portuguesa da região, com referências à arquitetura gótica, partido comum para fachadas de igrejas em todo mundo desde o século XIX. Mesmo com a alvenaria pintada em vez do revestimento em cantaria, estão presentes os arcos ogivais em portas e janelas, além da sugestão dos contrafortes laterais.

Capela de Nossa Senhora das Gracas Riachuelo William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Praticamente invisível devido às suas reduzidas dimensões e implantação, na Rua Vinte e Quatro de Maio, nº382, Riachuelo, encontra-se a minúscula capela dedicada à Nossa Senhora das Graças. Como outros templos na cidade, alguns também com a mesma devoção, este edifício se apresenta com fachada muito ornamentada, considerando sua diminuta área. Os elementos têm influência gótica, porém diferente dos modelos europeus, substitui o revestimento em cantaria por alvenaria pintada, destacando os ornatos em branco sobre fundo colorido.

Uma pequena igreja pouco conhecida na cidade abriga a Congregação das Missionárias da Caridade (M.C.), em Bonsucesso, à Av. Brasil 4947. Esta congregação religiosa católica foi criada pela Madre Tereza de Calcutá e está presente em mais de cem países no mundo, prestando sua assistência e auxílio aos pobres e desvalidos. Este templo, com a fachada caiada e torre única lateral, construído na segunda metade dos novecentos, apresenta relação formal com as capelas rurais portuguesas.

Ainda na região da Leopoldina encontra-se, no alto do morro da Bela-Vista, a pequena igreja de Nossa Senhora da Conceição, fundada em 1922 pela Irmandade de mesmo nome. Originalmente adotou o repertório art-déco, com suas formas escalonadas e geometrizadas. No entanto, após sucessivos párocos locais, recebeu muitas transformações que descaracterizaram totalmente do partido original, aproximando-as de algumas capelas mineiras coloniais modernizadas.

Igreja Santa Cecilia Bras de Pina William Bittar: As capelas quase invisíveis do Rio

Alguns bairros adiante, nas imediações da Estação de Brás de Pina, no alto da ladeira da rua Gurupatuba, destaca-se a fachada com torre única da Paróquia de Santa Cecília, fundada em 1929. O partido arquitetônico faz alusão a pequenos templos medievais com sua torre pontiaguda e ponto elevado de telhado.

Assim como estes templos, muitos outros importantes exemplares do patrimônio cultural carioca encontram-se envolto pelos véus da invisibilidade, esperando olhos atentos de ver para apreciá-los, resgatando valores associados a manifestações populares, impregnados de memória afetiva, matéria prima de nosso patrimônio imaterial.

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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